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querotrazerapoesiaparaarua

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Por Entre A Disparidade dos Rostos dos Dias

George Romney

 

Por entre a disparidade dos rostos dos dias

Desaprendi a coerência do rumo das horas

Perdi-me no desatino febril

De ser permanência num barco sem remos

De bússola presa a um norte inefável

Território de memórias

Fantasmas que vogam

Trespassam queixumes

Vendavais de estertores

De todas as mortes simbólicas sofridas

Num rol de percursos adiados, vendidos

Carimbados na senda rígida da segurança

Miragem de bem-estar

Cujo veneno lento

Esgota as veias ávidas de vida

E verga o sonho a um niilismo amargo

 

Ana Wiesenberger

 

Imagem – George Romney

 

Acordo Já Inquieta

The-Open-Book - Juan Gris

 

Acordo já inquieta

Os pensamentos sacodem-se em turbilhão

Encravam em saliências comezinhas abomináveis

Como se fossem pássaros numa gaiola vasta

E descobrissem no acaso dos seus voos

Os limites do espaço

 

Imagino-me programa com falhas

Fecho os olhos

Volto a abri-los

Tenho de fazer reset deste despertar

 

Segundo as previsões meteorológicas

Vamos ter sol

Debruço-me da cama

Como quem se encontrasse à janela

E procurasse ver algo lá fora

Saco um livro da pilha desordenada

Autores, épocas, idiomas, estilos distintos

E ganho consciência que o único diálogo possível

Só me acontece nesta babilónia construída

Pelo meu querer viajante

 

Acendo um cigarro

Saboreio um gole de café

E mergulho nas páginas

Como se abrisse a torneira

Para o duche matinal

Antes de encetar o dia

 

Ana Wiesenberger

24-08-2016

 

Imagem – Juan Gris

 

 

 

 

As lágrimas não esgotam a dor

Flames

 

As lágrimas não esgotam a dor

A solidariedade conforta

Mas não traz de volta

Os que nas chamas pereceram

 

As análises da situação

Serão estéreis e fúteis

Se delas não surgirem

Medidas concertadas

Para minorar um flagelo

Que anualmente destrói

O território pátrio

 

É preciso, que o povo se responsabilize

É preciso, que os governantes actuem

É urgente, exigir soluções

É urgente, gritar

Basta! Nunca Mais!

 

Ana Wiesenberger

20-06-2017

 

 

As Mães são Fadas

A34140.jpg

 

As mães são fadas

Que voam em torno de nós

Como luzes mágicas

Para afastar a escuridão

Das nossas vidas

 

As mães são abelhas incansáveis

Que nos alimentam os dias

Que nos vestem de coragem

Que nos embalam os medos

Que nos ajudam a definir trilhos

Que têm o condão de quase sempre saber

Onde nos dói, porque nos dói

E a loucura de querer encontrar

O bálsamo para todos os nossos males

 

As mães não nasceram mães

Não puderam aprender em lado nenhum

A serem mães

As mães são humanas investidas pela magia do amor

Que as transforma em fadas

Mas nem as fadas alcançam a perfeição

Todas fazem erros e sofrem por errar

A falta de formação ou o cansaço fá-las, por vezes, baralhar

 

Quando caem em si e reconhecem o desacerto

Lançam-se de novo a inventar estratagemas

Redes de segurança para nunca mais

Nos deixar cair ou magoar

E continuam em torno de nós a voar

Com as asas já amarelecidas pelos anos

Todavia, dispostas para a sua missão continuar

E ficam tristes e desiludidas

Se de nós as queremos apartar

Nem que seja para as agruras das horas, delas poupar

 

As mães são fadas

Que iluminam a nossa existência

Com o calor do sol que a vida gera e sustém

Com o calor do fogo que nos define enquanto gente

Que conjuram a escuridão para longe de nós

 

Ana Wiesenberger

07-05-2017

 

Imagem - Auguste Renoir

 

 

 

A vida é o salão de casino exuberante

Edvard_Munch_-_At_the_Roulette_Table_in_Monte_Carlo_-_Google_Art_Project

 

A vida é o salão de casino exuberante

Onde todos queremos ganhar

Amor, fama, riqueza, felicidade

Esse pássaro raro

Que alguns juram ter visto

E outros assumem como um mito

Passado de geração em geração

Para estabelecer um objectivo comum

Na disparidade das mentes

 

Jogamos sempre

E o balanço dos dias

Ora nos traz tristeza ou alegria

Proximidade ou distância

Do patamar onde queremos chegar

 

O tempo é uma gazela veloz

Que atravessa as estações das idades

E nos leva à presença do grande ceifeiro

Que em jeito de croupier nos diz

Faites vos jeux, mesdames et messieurs

E o terror só se apodera de nós

Ao vermos o movimento da roleta cessar

E a marca no nosso número ficar

 

 

Ana Wiesenberger

17-03-2017

 

Imagem – Edvard Munch

 

 

Já não sei, se sou o martelo

strong-dream-1929(1) Paul Klee

 

Já não sei, se sou o martelo

Que teima em se abater sobre o prego

Se o prego que entorta

Mas se recusa a entrar na madeira

Como dele, aliás, se esperava

 

São muitos os dias

As cores e os sons confundem-se

As normas são para ser quebradas

Às vezes?

Muitas vezes?

Nunca?

 

A arma do crime estava na sala

Mas ninguém a viu

Era um pequeno coração de ouro

Encerrado numa caixinha bege

Com o nome da ourivesaria

Que entretanto, já não existia

Falira sob o peso

De tantas juras de amor

 

 

Ana Wiesenberger

27-03-2017

 

Imagem – Paul Klee

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