Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

querotrazerapoesiaparaarua

querotrazerapoesiaparaarua

Não Sei, Se São Saudades do Meu País

Não sei, se são saudades do meu país
Ou as outras, as da infância
O tempo da inocência, da crença
Dos sonhos que haviam de vir

Não sei, se são os arcos da memória
A torturarem-me em flechas elegantes
A insinuarem em mim
Imagens longínquas de praças e ruas
Ao sol

Não sei, se é Lisboa a rasgar-se
Por entre os meus dias de frio
Longe do Tejo de menina
E do Sado da adolescência

Não sei, se são os sons nasalados
De Pão e de Não que me faltam
Se são os rostos abertos em sorrisos
Dos amigos que encontramos, por acaso
No café

Não sei e talvez não seja bom para mim
Escavar na ausência
Ecos e vozes de outras datas
Quando escolhi aceitar nos caminhos
A luz amarga da razão

Amanhã, não
Depois de amanhã e outro amanhã
Seguido de muitos outros amanhãs
Hei-de abraçar em mim, sôfrega
Uma língua, uma casa de janelas abertas
Uma proximidade terna
De que nunca me cheguei
A exilar

Ana Wiesenberger
26-01-2013

Vista de Lisboa - Carlos Chagas
Fotografia - Carlos Chagas

Tornei-me Um Nó Imenso

Tornei-me um nó imenso
Uma tocha incandescente de dor
À deriva pelos dias
Que se foram, que vão
Que hão-de vir

Nada em mim aponta caminhos
De Sol e madrugadas felizes
Recolhi todas as chaves
Mas não achei a porta
Deitei-me à soleira de muitas
Quando o cansaço me obrigava
A relaxar os músculos de procurar

O tempo é um fio doloroso
A que nos agarramos como náufragos
Fantasmas de nós
E do que poderíamos ter sido
E rasga-nos as entranhas
Quando a noite nos assola o espírito
Para escavar bem fundo
Todas as ausências que nutrimos
E todas as âncoras que recusámos
A bordo de um navio fantástico
Desse capitão holandês
Que nos fez perder a alma

Agora já é tarde para sairmos da caverna
E abandonar o mundo das sombras
Que tomámos por real
A luz queimar-nos-ia os olhos
Devolveria os nossos corpos à terra
Reduzir-nos-ia ao pó
Estrelas desfeitas num universo moribundo
De um criador louco

Ana Wiesenberger
14-01-2013


René Magritte

Tempestade Tropical

Tempestade Tropical

Ontem tive frio dentro de mim
E quis afastar-me do ermo cinzento musgoso
Que me apertava na garganta
Uma urgência de correr

Ainda olhei em redor
A sondar na postura das minhas sentinelas
Uma brecha de liberdade
Em Vão

Por isso, deixei-me estar atrás do vidro
Das muralhas do meu palácio
Tão diligentemente construído
E fixei no céu aberto
Um pedido veemente
De uma tempestade tropical

E logo ribombaram luzes magníficas
A sacudirem a minha solidão
Em abanões de lágrimas
E queixumes ancestrais
Do meu pacto

Depois, voltei ao meu silêncio
Tranquila na responsabilidade do meu caminho
Apaziguada e rendida
À consciencialização de um dever
Que é desejo
Que tudo transcende
E a tudo obriga
E é voz, corpo e carne
Em mim

Ana Wiesenberger
10-01-2013


Woman Sleeping - Rembrandt

Fico Ébria De Tanto Querer Sonhar

Fico ébria de tanto querer sonhar
Pesam-me os dias cinzentos
E a inquietude enlouquece-me
Ahab rendido a uma Moby Dick
Sempre longínqua

Desfio planos de evasão impossíveis
Que não me convencem a acarinhá-los
Pequenos nichos de encontros
De corpos emaranhados
Numa Voz Subterrânea
Que alcançou a luz real

E fico triste e envergonhada
Por não conseguir tocar o mosto
A madureza de uma maçã por saborear
Votada à eternidade do meu medo
De sentir
Recatada, sem enlaçar as mãos à beira do rio
Que eras tu
E que eu me recusei a ver

Mas tudo isso, já são verdes de outrora
Que agora amarelecem no Outono
Do que quase consegui ter
E deixam-me na nostalgia dos caminhos
Que poderia ter percorrido
Se não fora
A imensidão ferida das asas sacrificadas
Na senda de um amor absoluto e natural

Ana Wiesenberger (in Nós Poetas Editamos IV)

Imagem de Ricardo Fernández Ortega

Serão Duas, As Estradas

Serão duas, as estradas
Que me levam para casa
Serão duas, as estradas
Num único propósito
De me recolher dos caminhos
E me abrigarem do mundo

Serão duas demais
Quando nem uma consigo
Conter em mim
Quando a febre do meu ser confuso
Desatina gargalhadas de lava e cinza
Num borbulhar de dor

Serão duas e eu nada vejo
Na penumbra dos meus dias de esquecimento
Do que fui, do que sou, do que serei

Serão duas luzes, duas estrelas
A iluminar a noite imperscrutável
Da minha vida

Serão duas as mãos que me levantam
Do pó do meu canto
Da nudez dos meus pensamentos
Que me dominam sem trégua
Nem misericórdia por fundar

Serão duas as existências
De rumos fundidos
Numa tapeçaria louca que construi leviana
No tempo do não ser

Serão duas as extremidades em que vigilo
A minha respiração fantasiosa
Com medo que o meu ser decida
A morada do silêncio final

Ana Wiesenberger
06-01-2013Maximilián Pirner - Sleepwalker

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Corredores, 2015

Portugal, Meu Amor, 2014

Idades, 2012

Dias Incompletos, 2011

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D