Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

querotrazerapoesiaparaarua

querotrazerapoesiaparaarua

Hoje Gostava de Me Pôr Em Bicos de Pés

Hoje gostava de me pôr em bicos de pés
Em pontas, talvez
E pintar no cinzento do céu
Nuvens cor-de-rosa com sorrisos amarelos
E olhos azul-bebé

Depois, ia buscar o resto dos lápis de cor
E desenhava com cuidado
Um arco-íris sobre o mundo
Talvez, assim, as pessoas acordassem
Para a beleza, para a paz
Talvez, assim, eu conseguisse fazer alguém
Feliz
Mesmo, se fosse só um minuto
Um segundo fugaz, como um gato tímido

Em seguida, se ainda tivesse tempo e energia
Envolvia o cotão de neve em bolas de sabão
E cristalizava-as no ar
Para que nunca rebentassem e fugissem de nós
Com a nossa infância e os nossos sonhos

E decerto, que nesta paisagem maravilhosa
Haveria ruas e avenidas repletas de gente sorridente
A passear os seus cãezinhos e gatinhos
De que só se separariam
Quando a morte lhes cortasse o elo

Nos parques e nas escolas
As crianças viveriam as horas com deleite
E de mãos dadas com o amor bem definido
Entre as tarefas de crescer e brincar
De aprender e de ser

E à noite, não haveria ninguém abandonado
Numa praça, num banco de jardim, num canto
Ao frio, à fome e à sede
Votado ao desespero
De não ter amanhã

Neste cenário, ricos seriam só aqueles
Que mais podiam partilhar
Sem ofender na dádiva
Sem engodo oculto
Num abraço forte e pleno
Fraternidade

Ana Wiesenberger
08-02-2013

Imagem - (efeitos especiais registados no livro encontrado de Herman Schultheis)

efeitos especiais - Herman Schultheis

O Passado É Um País Estranho

O passado é um país estranho
Alguém escreveu
Talvez, por isso, eu me veja tão distante
Nos dias idos, que foram meus
E no entanto, dobram no meu reconhecimento
Folhas de credibilidade em erupção

Os olhos eram tão vivos
Tão resplandecentes de luz
De emoção
Os gestos eram vestidos de uma força
De uma intenção
De uma cor
Que já não vejo

Quem era aquela miúda sorridente
No triciclo a sulcar as horas
Com a irmã ao lado
Ambas tão entregues à luz da tarde
Ao conforto de saber
Que a noite é só o que sucede ao dia
E abre nas camas fofas
A vontade de fechar as pálpebras
E sonhar

Quem era aquela adolescente
A explodir as horas em fagulhas
De ideias, de ideais, de dúvidas
E caminhos apetecidos

Quem era aquela jovem mulher
Segura e caprichosa nas curvas dos momentos
A enrolar o fio das atenções, selectiva
Com a naturalidade de quem separa os morangos perfeitos
Dos que apodreceram
Ou não têm sabor


O passado é um país estranho
Que nos devemos coibir de visitar
Se queremos viver o presente
Com a coragem de sabermos
Que o tempo flui
E não se agarra
E o espelho é uma dimensão líquida
E traiçoeira como um lago
Coberto de musgo cremoso
Em que não devemos mergulhar

Ana Wiesenberger
17-03-2013

Imagem - Henri-de-Toulouse-Lautrec

Imagem - Henri-de-Toulouse-Lautrec

A Solidão Galopa Os Meus Dias

A solidão galopa os meus dias
De crinas soltas ao vento
Da tristeza
Da apatia
Da fúria que vai e vem
E faz ferida
No meu corpo indeciso
E vazio

Fecho-me nas palavras
Aninho-me por entre as páginas
À procura do calor
Da companhia
De outra voz
Que me fale
Que me entenda
Que me leve para longe daqui

Passeio-me pelas cores
Deambulo entre pinturas díspares
Encontro com sensibilidades
Que me tocam
Que me afagam
Que resgatam na minha consciência
A vontade enferma
Para olhar em redor

Sonho com bosques vivos
Mares e penhascos
Terra, maresia
O verde revigorante das árvores
A frescura salgada da água
Mas o farol que devia iluminar
Os meus passos
Permanece oculto
Não atravessa o cerro da floresta
Não vence a densidade do nevoeiro

14-03-2013

Ana Wiesenberger

Imagem - Munch

Ser Mulher é Ter a Coragem

Ser mulher é ter a coragem
De ser terna
De ser firme
De saber encontrar nos instantes
O Sim, o Não e o Talvez
Das respostas

Ser mulher é enfrentar o medo
De se abrir em vida
É ter mãos imensas
Que cuidam
Que afagam
Que protegem
Que abraçam em si uma intersecção
Um mundo próprio
Um mundo dos outros

Ser mulher é ser seio e ser arma
Ser enseada de paz e amor
E ser faca de gume certeiro
A dividir no quotidiano
As energias, as atenções, o alento
Dentro e fora de casa
No trabalho
E no cansaço
Das horas tardias

Ser mulher é ainda
Lutar por uma igualdade de direitos
Por acontecer
Combater preconceitos de mentes atrofiadas
Que zelam por mordaças
No salário, nas hierarquias
E na família

Ser mulher tem de deixar de ser
Lágrimas doloridas de vítima de maus tratos
Corpos vendidos à dor de sobreviver
Almas amarrotadas de silêncios por romper
Rostos ausentes de alegria

Ser mulher tem de ser
Fazer de cada mês um longo Março
E em cada dia, um oito de pés firmes
Com coração de leão e pomba
Desbravar

08-03-2013
Ana Wiesenberger

Imagem - Giovanni Boldini

Basta!

Basta!
Estamos fartos de servir
Quem não serve os nossos interesses
Estamos cansados de sustentar
Os esquemas corruptos de uma Banca
Que sustém sempre os mesmos

Basta!
Estamos fartos de acreditar
Em Planos de Recuperação, Concertação
Que deixam o nosso país de rastos
Obrigam os nossos filhos a procurar trabalho
Além fronteiras
E inviabilizam a educação
Dos que se querem construir

Basta!
Estamos fartos de ver
O Desemprego a crescer
A taxa de depressões e suicídio a aumentar
Os rostos tristes e desiludidos dos mais velhos
A angústia das mães e dos pais do nosso povo

Basta!
Estamos fartos de ser iludidos
Rebaixados na nossa autonomia
Vendidos a retalho
Num mercado que nos suga

Basta!
Queremos as nossas vidas de volta
Queremos ser novamente
Um Portugal íntegro e livre

02-03-2013
Ana Wiesenberger

Imagem - fonte desconhecida

Foto de manifestação a preto e branco

De Tantas Janelas Em Portas Desenhar

De tantas janelas em portas
Desenhar
E fingir que sentia a brisa
Desabituei-me de respirar
Dei nós nos pulmões
Mumifiquei a paisagem dos dias
Em Naturezas Mortas
E errei pelas galerias
De um museu de memórias
Feridas perpétuas
A rasgar na consciência
O que podia ter sido
E não foi

De tantos silêncios suportar
Desabituei-me de comunicar
Engoli os pensamentos
Sem lhes dar voz
E deslizei pelos livros
Como nómada
À procura de uma pátria de palavras

De tantas errâncias
Confundi meu ser
Em ambivalências
Paradoxos
De quem quer ir
E ficar
Ser
E tornar-se
Vida

25-02-2013
Ana Wiesenberger

Imagem - Gabriel Sainz

Imagem de Gabriel Sainz

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Corredores, 2015

Portugal, Meu Amor, 2014

Idades, 2012

Dias Incompletos, 2011

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D