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querotrazerapoesiaparaarua

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Ao Fernando Guerreiro

Imagem - foto de Fernando Guerreiro

 

Ao Fernando Guerreiro

 

Eu sei que os poetas não morrem

Tão pouco, os actores

E tu eras tudo isso e muito mais

Mas dói tanto

Quando se afastam do nosso horizonte

 

O brilho dos teus olhos

O sorriso ainda a pairar no ar

A voz aberta, o modo despretensioso

A calidez da postura

A proximidade vincada nas palavras

E na atenção ao outro

 

Repousa, Guerreiro

Não deixaste sombras

Mas luz

Iluminaste palcos e gentes

Com a tua capacidade de ser

Grande

Sem deixares de ser

Pequeno

Entre os Demais

 

Repousa, Fernando Guerreiro

Que as gentes de Setúbal

Levar-te-ão aos ombros

Nas memórias das gerações

Que atravessaste

 

Repousa, amigo

Guardarei para sempre

A prenda que me deste

Ao dizeres-me na minha estreia

Na biblioteca

Que gostaste do meu poema

 

Hoje, os Deuses estarão em festa

Para te receber

 

 

Ana Wiesenberger

28-08-2013

 

 

Na Minha Vida Deixei-me Abraçar

Imagem - Pedro César Teles

Na minha vida deixei-me abraçar
Por patas e páginas
Cães, Gatos
Livros, jornais, revistas
Cadernos meus em que mergulhei
Emoções
Em que tentei encadernar a minha solidão
Endémica

Houve sempre mãos a quererem-me tocar
E eu a querer ser tocada
Aprisionada na torre do meu ser
Sem me conseguir libertar
Sem me conseguir dar
A ninguém

Todavia, sinto com tanto fervor
O Colectivo; as vozes feitas de terra
Sangue e Dor
Os desprotegidos, os segregados
Pela amoralidade dos sistemas
Pela indiferença confortável
Dos que juraram viver bem
Num quadrado bem definido
De presunção e concepções estreitas
Fechadas à dinâmica do crescimento
Da elevação do percurso humano

Na minha vida, restam-me as palavras
Para chegar aos outros e a mim
E às vezes, quando o sol se põe
E a noite me enlaça numa exteriorização
Da minha amargura, da minha escuridão
Olho o céu através da cortina das minhas lágrimas
E procuro nas estrelas longínquas
Todas as vozes e os cheiros amigos
Que já se apartaram de mim

Ana Wiesenberger
20-08-2013

 

Imagem - Pedro César Teles





No Meu Bairro do Facebook

Imagem - George Grosz

 

No meu bairro do Facebook

Encontro quase tudo

De que preciso

Há carinhas risonhas e mensagens

De encantar

Até mesmo as Boas-Noites

Alguém gosta de dar

 

No meu bairro do Facebook

Posso circular a qualquer hora

E se estiver atordoada nas ruas

Há sempre alguém

Que me vem ajudar

 

Gosto do meu bairro do Facebook

Onde os humanos são mesmo humanos

E há tempo para conversar

 

Gosto do meu bairro no Facebook

Onde as casas são coloridas com bonecos expressivos

E as gentes têm preocupações sociais e morais

Que pediram a outros de empréstimo

Como quem vai buscar salsa à vizinha

 

Gosto do meu bairro no Facebook

Porque lá, todos os dias, são dias de festa

E a música é boa

Há grinaldas de solidão a entrelaçarem-se

Em nós de atenção

A toda a hora

E não há recolher obrigatório

Para reunir a força

Para a tarefa do amanhã

 

Gosto do meu bairro do Facebook

Nos dias úteis, nos feriados e nos Domingos

Nas horas de ponta do vazio comum

Em que nos encontramos

E nos minutos tardios

Em que os vizinhos aparecem

Porque o sono ou a vontade de dormir

Estão ausentes

E eles vêm para a soleira das portas multicores

Ver quem passa

E se alguém para

Para lhes achar graça

 

08-06-2012

Ana Wiesenberger


Imagem - George Grosz

Ide ao Teatro

Imagem - Pablo Picasso

 

Ide ao teatro

Sentai-vos na plateia

Segurai o vosso programa

Entre as mãos curiosas

A antecipar o deleite da representação

 

Ide ao teatro

Reservai os vossos lugares

Como burgueses responsáveis

Como funcionários polidos

Na cautela e na previsão

No sossego do que já está no papo

Antes de estar

 

Ide ao teatro

Contai na fila para a bilheteira

As vossas moedas inquietas

Num porta-moedas arejado

De artista, intelectual pobre

Mas culto

Sem meios e contudo, com mais

Do que os demais

 

Ide ao teatro

Sentai-vos na plateia

Assimilai do palco o vosso terreiro

Vivei na exuberância dos gestos e das falas

Aquilo que calais nas vossas vidas

Aquilo não consentis em mostrar aos outros

Aquilo que desejáveis para os vossos intentos

Se a bravura de ser vos tivesse abençoado

 

Ide ao teatro

Deliciai-vos com os cenários e o guarda-roupa

Com a estranheza ou a confirmação do texto

Na comunhão dos vossos horizontes

Na quimera do vosso silêncio

No aplauso da viagem partilhada

Que ainda será, depois da luz

Dos vossos bilhetes

 

Ana Wiesenberger

16-08-2013

 

Imagem - Pablo Picasso

15 de Agosto

Imagem - Leonel Marques Mendes

15 de Agosto

Ontem foi 15 de Agosto, feriado no meu país
Dia de festa celebrado pelo povo com alegria
Já de véspera em bailes de aldeia e lugarejos
Adros de igreja enfeitados, ajeitados de flores
Coloridos de bandeirinhas de papel vistoso
E vozes de cantores célebres na rota assinalada
Pelos palcos de Verão das redondezas

E veio-me à memória madura, as minhas andanças
Do Aquele Querido Mês de Agosto
Em que a minha prima do campo, da mesma idade
Que eu
Me traduzia as manobras e os requebros dos rapazes
Lá do sítio
Como se brincássemos, ao Rato do Campo e o Rato
Da Cidade

Naquela altura, o mundo dela, ainda era pequenino
E dominava com requinte de guarda-livros
Os nomes de família deste e daquele
A fortuna velha ou nova
Os percalços da sorte afectos aos rostos e aos bens
O idiolecto apropriado, a cortesia e a leveza
Com que a todos encantava

Eu perdia-me por entre tantas referências
Achava graça a tudo
Ria a despropósito
Pintava os olhos, punha batom
E dançava com quem não devia

Hoje, ela vai às compras a Itália todos os anos
Para se distrair
Telefona-me em pânico do hospital
Uma cirurgia estética na manhã seguinte
Que vai fazer
E eu que tenho o corpo e o rosto da minha idade
Tranquilizo-a e alimento-lhe o ego sensível
Falo-lhe dos bons resultados das anteriores
E ela, já mais calma, embala o medo de ficar velha
E feia com o do bisturi
E adormece a sonhar que tem quinze anos
E o coração de todos os varões em redor
Que vale a pena conhecer

Tem uma herdade enorme e outros punhados de terra
Em que pensar
Três filhos, um marido que a adora e lhe venera todos
Os caprichos
Depressões recorrentes, crises de ansiedade, de fuga
De espiritualidade confusa
Ruma a Fátima em oração, reúne-se com os outros
Peregrinos
Jura estar no caminho da Salvação
Faz ioga, engole tranquilizantes, antidepressivos
E agarra-se à vida com a mesma convicção
Com que em adolescente guiava tractores nas vindimas
E galopava sedutora
Sob o olhar atento dos vizinhos

Ana Wiesenberger
16-08-2013

Imagem - Leonel Marques Mendes

Os Cavalos A Correr/As Meninas a Aprender

Imgem - Reginad Marsh

Os Cavalos a Correr
As meninas a Aprender
Cabra-cega de sonhos
Bonecas mutiladas
Roupas sujas
Sapatos gastos
Dos embates em pedras
Insuspeitáveis
Fitas do cabelo desbotadas
Das horas em que as crenças
Foram fiadas
Do vão da escadas
Onde príncipes autistas
Foram aguardados
Da luz alegre do candeeiro
Sobre a cama infantil
Que sem darmos por isso
Se fundiu

Os Cavalos a Correr
As Meninas a Aprender
Qual será a mais bonita
Que se irá esconder

Patamares de estupefacientes
Rostos impávidos de vazio
Mãos pardas de tempo
Carrinhos de rolamentos desfeitos
Em acidentes absurdos
Na calçada da vida

Os Cavalos a Correr
As Meninas a Aprender
Qual será a mais néscia
Para o monstro comer

Pénis-espadas
Gravatas-nó de forca
Casas de bonecas abortadas
Na escuridão dos pensamentos

Os Cavalos a Correr
As Meninas a Aprender
Torres invisíveis
Sangue, Sémen
Nascimento, morte
Tranquilidade com vista
Para lápides limpas
Promontórios de fins apetecidos
Á sombra-mãe das árvores

Ana Wiesenberger
12-08-2013

 

Imagem - Reginald Marsh




 


Conjugando O Lazer

Imagem - Georg Grosz

Conjugando O Lazer

Eu não turisto
Tu não turistas
Eles turistam

Nós fazemos contas
Nós pagamos contas
Eles põem e dispõem
Do nosso esforço
Do nosso dinheiro
Das nossas insónias
Dos nossos medos
Da nossa identidade
Da nossa incapacidade
De criar novos rumos

Eles gozam o astro-rei
Em qualidade
Em destinos que nunca vimos
Nos nossos sonhos aprisionados
Pelas contingências básicas
Comer e alimentar os nossos filhos
Orgulho feito de sapatos em condições
Livros e malas para a escola
Um perfume, um jantar num restaurante simples
Em dia de aniversário lá por casa

Eu não turisto
Tu não turistas
Eles turistam

E constroem no ócio descontraidamente
Mais patranhas com que nos vão enganar
Mais redes com que nos vão apanhar
Mais becos grotescos onde nos vão afundar
E nós consentimos

E mentem-nos nos propósitos ínvios
E adulteram a justiça
E escondem mais e mais esquemas
E nós consentimos

Até quando?   

 

Ana Wiesenberger 06-08-2013

 

Imagem - Georg Grosz

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