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querotrazerapoesiaparaarua

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Ao Deambular Por Sesimbra

Lauro Corado

 

Ao deambular por Sesimbra invade-me
A estranheza de ter entrado numa casa de espelhos
Esforço-me por não olhar em redor
Concentrar-me no momento presente
Todavia, é quase impossível ignorar
A unidade fragmentada

Oiço-me adolescente por entre a família
A atrasar o pedido do almoço no restaurante
Por não gostar de comer isto ou aquilo
Ou a perguntar detalhes quase absurdos
Sobre o modo de confecção dos pratos

Vejo-me a respirar uma juventude
Conscientemente rebelde e sedutora
Entregue à dança sob os reflexos cromados
Do tecto da discoteca

E depois, ainda a outra, já mulher
Ao jugo da carreira e da maternidade submetida
A tentar conciliar a obediência à responsabilidade
E a liberdade interior
A sentir o sonho afastar-se devagarinho

E por isso, quando aqui estou
Passo por mim em cada canto
Suporto paciente o peso da dor
Vivo o crime e a automutilação da alma, do ser
Já sem revolta, só tristeza feita de xaile à beira-mar
Num cais que outrora devia ter abandonado

Ana Wiesenberger
04-04-2014

Imagem - Lauro Corado

Janelas de sol descobrem no casamento cinzento

Pedro César Teles

 

Janelas de sol descobrem no casamento cinzento
Do céu e do mar
Rasgos de luz e beleza a quem o rugir das ondas
Empresta interstícios indecifráveis de raiva e dor
Num concerto monumental acontecido
E sempre novo sob a ogiva da terra mãe
Doce alento que me dobras na desesperança
Na fealdade fútil dos dias
O encanto da maresia ancestral que sou eu
E me deslumbra numa promessa de unidade perdida
Num regresso sempre temido
Sempre desejado

Ana Wiesenberger
01-04-2014

Imagem - Pedro César Teles

Estou Cansada de Memórias

Arthur Hughes

 

Estou cansada de memórias
De salas de espera arrumadas em cubos
Como aquários de grilos sibilantes

Já mandei calar o Watson e o Sherlock Holmes
Disse ao Eça que fosse govarinhar para longe
E ao Brecht que fizesse uma revolução

Eu estou fatigada de ecos dentro e em redor de mim
Já não encontro chaves à espera que eu lhes pegue
Já não distingo a Fada Boa da Má
E desisti de ir até Oz

Vou desintegrar-me em palavras vãs e audiências
A condizer
E fingir-me leda, completa, toda adaptada ao vazio
Das vozes que me estreitam pretensamente perto
E cada vez mais longe de mim

Vou exilar-me nas montanhas do sono e do sonho
Onde a beleza ainda acontece e eu não tenho frio
Nem fome de ser e estar
Onde os seres pequeninos são mestres e sábios
E sabem ouvir e ensinar
Onde não há espaço para mentiras ou inverdades
Onde a transparência das almas se entrelaça
Numa harmonia expansiva de um arco-íris sem par
E ninguém precisa de se justificar
Para existir

Ana Wiesenberger
03-04-2014

Imagem - Arthur Hughes

Na Cabeça Vazia Pesam-me AS Vozes

Albert Birkle

 

Na cabeça vazia pesam-me as vozes
Que não consigo escutar
Oiço-as já, só como ruído, perturbação
Do meu silêncio arrebatador

Quebram-se nas pontes os pilares dos sentidos
A que me agarro em vão
E despenho-me numa imensidão de incerteza
Aguarela tépida a esfumaçar fios tremendos
De tempo e tempos por adivinhar
São cruzes ou são corvos
Que os meus olhos cansados descobrem
No horizonte tenaz da minha paisagem interior

Não consigo agarrar os contornos das coisas
As muralhas são redes envenenadas por medos
Dos ecos dos meus fantasmas febris

Os olhos dobram-se sob o peso dos séculos
Catedrais dispersas de Deuses reais e irreais
Que me rasgaram o peito em preces absurdas

Escuto agora a água a cantar numa fonte qualquer
Que ainda sangra dentro de mim
Centopeias melodiosas de sonhos

Ana Wiesenberger
27-05-2012

Imagem - Albert Birkle

Este Corpo É Uma Hiena Doente

Arnold Böcklin

 

Este corpo é uma hiena doente

Condenada a errar a sua fome permanente

Que a ausência de dentes capazes

Não lhe permite saciar

 

E contudo, tenho voos de águias

A explodirem no meu peito imenso

E prelúdios de caça grandiosa

Em esgares de lobo premeditado

De olhos vagabundos de horizontes

 

Dói-me a insensatez deste vulto

Que ora exulta, ora cai

Ora é, ora não é

Querendo picar o ar como os falcões

Enquanto rasteja humilde como as cobras

Amedrontado, inquieto, preso

Nos ecos insofismáveis das vísceras mestras

 

Ana Wiesenberger

Março 2014

 

Imagem - Arnold Böcklin

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