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querotrazerapoesiaparaarua

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Não Consigo Entrever A Minha Vida

Pedro César Teles

Não consigo entrever a minha vida

Por entre os cortinados das horas

Quanto mais os abro, mais se cerram

Diante dos meus olhos incrédulos

Traição massiva do que sempre fui

Do que sempre quis

 

A penumbra instala-se intrusiva

Como se já não houvesse sol

Ou as nuvens vingadoras

O tivessem aprisionado

 

Das portas, nem sombras

Uma ilusão de chaves por alcançar

Num deserto de exaustão e desesperança

 

Todavia, permanece em mim a convicção

De que o gelo não mata

Apenas adormece a paisagem

Para lhe conter a beleza

Para fundir em si a ponte

Aparentemente intransponível

Entre o princípio e o fim

 

Ana Wiesenberger (in Corredores)

30-09-2014

Imagem - Pedro César Teles

Obrigada, Sol

Joseph Mallord Turner

Obrigada, Sol
Porque me aqueces
E dissolves com amor
O frio que me inunda a alma

Obrigada, Vento
Porque me sacodes
E me libertas do entorpecimento
Com que a depressão me ameaça

Obrigada, Chuva
Porque me despertas
Quando sulco as ruas
Ausente de rumo e sentidos

Obrigada, Neve
Que me envolves em beleza
E espalhas a magia em redor
Por que os meus olhos anseiam

Se eu fosse tempo
Seria nevoeiro, glaciar
Ou tempestade
Mas como sou mulher
Solto o meu temperamento cíclico
Em lágrimas, gritos e fúrias infernais
Nos dias em que não consigo
Ser apenas sorriso

Ana Wiesenberger
17-09-2014

Imagem - Joseph Mallord Turner

Há Alturas Em Que Temos de Parar de Ser

Joseph-Désiré Court

Há alturas em que temos de parar de ser
Para sentir
Arrumar o corpo num sítio, aquietá-lo
Imobilizá-lo e permitir que o olfacto
E a visão suturem o vazio instalado

Suspender a inquietude da afirmação do ego
Atar a leveza da borboleta a uma pedra
E esperar pela profundidade do musgo
Dos nossos pensamentos mais íntimos
Sempre ocultos nos passos desaustinados
De um quotidiano febril em que se faz
O que tem de ser feito
Em que se olvida o querer
A voz subterrânea cada dia mais amordaçada
Sufocada pela realidade invasiva
A anular o que há de singular em nós

De tantas pontes construirmos
Para chegarmos aos outros
Esquecemo-nos da necessidade de olharmos
Para dentro e lermos a nossa verdade
Que pode não ser admirável, qual obra de arte
Mas é a nossa raiz, a nossa marca
Que nos distingue dos outros
A nossa respiração

Ana Wiesenberger
27-08-2014

Imagem - Joseph-Désiré Court

Entre Patas E Garras de Amor

Cori Solomon

Entre patas e garras de amor
Repousam meus afectos contínuos
E enormes de ver

Entre focinhos e pêlos fofos
Refugio o meu rosto do mundo
Na hora do amor

Faz-me tanta falta o miar e o latir
Que já não oiço
Os dentinhos agudos, brincalhões
A ameaçarem carinhosas proximidades
À minha pele triste
Num esboço de dentada
Feito de ternura

A minha memória é uma galeria de cor
E de cheiros
Sepultados pelos caminhos que o tempo lavrou
Todavia, mais reais que o ar que respiro
Que me devia nutrir de capacidade
Para amar este mundo imperfeito
Em que tudo é o que não é
E parece ser outra coisa ainda
Que nem linda é

Obrigada, meus amigos de sempre, para sempre
Por terem franqueado o cerro do vidro fosco
Em que me tornei

Obrigada por não me permitirem fechar a porta
Do ser, do sentir e do partilhar

Obrigada por me embalarem na harmonia
Na sabedoria ancestral dos vossos gestos

Obrigada por me ensinarem a amar

Ana Wiesenberger
21-05-2012

Imagem – Cori Solomon

Setembro

Gustav Klimt

Setembro dos ocres misteriosos
A surpreenderem-nos pelos caminhos
Por entre o calor do sol
E o sal do mar que apetece
Agora mais do que nunca
Porque sentimos a ânsia de prender o Verão
Não permitir que ele parta
E leve consigo as horas despreocupadas
Que vivemos
Os risos das crianças, os olhares cúmplices
Dos apaixonados libertos do jugo do trabalho
Para amar

Setembro das minhas memórias doces
De juventude
Mãos enlaçadas em passeios inocentes ao pôr-do-sol
A desenovelar sonhos por cumprir
Destinos difusos ainda
A ganhar contornos nas nossas vozes de esperança
Nas nossas expectativas articuladas
Na promessa que os adultos diziam ver em nós
Ou não

Setembro do amor, da paixão natural
Que tivemos de encerrar numa caixa de areia
Por sermos néscios e acreditarmos
Que os outros tinham razão
Não era para cumprir
E afinal, a vida reencontrou-nos em amizade
De cicatrizes guardadas e esquecidas
E eu penso nas horas pardas da minha meia-idade
Que até estive com o Príncipe Encantado
Mas não fui capaz de vestir a minha rebeldia de egoísmo
E fiz-lhe ver, que eu não era a sua destinada Princesa

Na despedida trocámos prendas
Tirei o meu colar de contas violeta do pescoço
Ele despiu a camisola verde como a copa das árvores
Que ambos sabíamos respirar
Abraçámo-nos com olhos vítreos de dor
E voz quebrada
Em mim sempre o imperativo do verbo a ceifar o meu querer
O meu desejo
É melhor assim!

Ana Wiesenberger (02-09-2014)
Imagem - Gustav Klimt

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