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querotrazerapoesiaparaarua

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Passei do Rigoletto a Cármen

 

An Evening At Home - Eward John Poynter

Passei do Rigoletto a Cármen
Sem que a Bela-Adormecida em mim
Despertasse
Um aceno de cisnes
Um lago convidativo aqui e ali
E depois, novamente o pântano
O corvo a apoderar-se da alma
A convicção profunda de ser pedra
Estátua de um passado desconhecido
Largada por entre a gente

 

O amor guardava-o em mim
Em arcos de palavras
Léxicos afectos a várias línguas
Sonoridades belas, sedutoras
Que me preenchiam os dias

 

E no entanto, procurava sentir mais
Mas a proximidade dos outros
Era imperfeita e mesmo transtornada
Pelos leques das letras impressas
Permanentemente presas nos meus olhos
Que vergavam despedidas
Ao conhecerem a voz dos meus lábios

 

E depois, tu vieste e compreendeste
Que eu só podia, só sabia ser assim
Miríades de fogo e melancolia
Inquietação e fuga constante
Para as pradarias das páginas
Onde realmente vivia

 

Ana Wiesenberger
17-04-2015

Imagem – Edward John Poynter

 

Começo O Dia A Espiar As horas No Relógio de Pulso

 

pablo Picasso - Face

Começo o dia a espiar as horas no relógio de pulso
E a afastar a noite de dentro de mim
Salpicos de vazio do ontem, ainda a estorvarem-me
Na mira da Casa de Partida

 

A perna esquerda, pelo menos está viva
Tenho a certeza porque me dói
E desato a rir do absurdo de me lembrar
Que o povo assume os ossos
Como cérebros da meteorologia

 

Engulo o café, entranho o fumo do cigarro
Mais um e juro, que me vou erguer da cama
É domingo, aquele dia meio estúpido
Que nem é início nem fim de semana
É só uma voz inquietante a censurar-nos
Por não termos aproveitado as horas livres
Como devíamos
E a acenar-nos com a segunda-feira dura de roer

 

É desta! Espreguiço-me
O hálito esquisito ainda não convida a pequeno-almoço
Mais tarde, daqui a pouco já como
E vem-me à memória súbita, o tempo em que conseguia
Deglutir uma tigela de cereais, logo ao despertar

 

O tempo é um escultor ou uma bomba química, hostil
Que destrói as nossas capacidades?
Olhamo-nos ao espelho e temos de lavar a cara
Aquele estranho(a) diante de nós
Para onde terá ido o meu rosto, o meu sorriso?
Para onde terá ido a fome do meu olhar?

 

Ana Wiesenberger
19-04-2015

Imagem – Pablo Picasso

 

Gostava de Ligar O Número de Um Amigo

Magritte-HomagetoMackSennett1934

Gostava de ligar o número de um amigo
Dizer-lhe, que dói
Sem saber dizer, onde dói
Sem ter de fazer acontecer
Explanações ocas, metafísicas
Falsas verdades vis
Enceradas em bom senso
E vontade de ser
Qualquer coisa amena
E exilar no negrume da noite
Os morcegos da alma
Eternamente presa de uma inquietude secular

 

Gostava de ouvir grinaldas de cor e afecto em arco-íris
Alongados até mim desde o outro lado da linha
Mas o tempo e o espaço são lugares que se entranham
E nos convencem
Que as portas não são para abrir

 

Ana Wiesenberger
10-04-2015

Imagem - Magritte

 

Escrevo Perante O Rosto da Noite

Edvard Munch - Melancholy

Escrevo perante o rosto da noite
Num hotel que de tão familiar
Me faz crescer em estranheza

Escrevo à luz do cansaço saudável dele
Que lhe permite dormir sem químicos
Virgem ao mundo dos fármacos
Em que os outros existem em On e Off

Escrevo na companhia do vinho tinto do copo
Que felizmente me dobra a loucura
Me afaga a solidão
E me diz, que devia encostar a cabeça à almofada
Como se eu fosse um cabritinho jovem e desajeitado
A quem a mãe explica a necessidade de descansar
No verde da planície para aguentar a jornada de amanhã

Escrevo na voragem dos que não têm companhia
Mas se fingem acompanhados pelas páginas dos outros
A que se agarram, desesperados de mitigar a sede endémica
Do deserto fabricado com a ausência consentida ao longo dos anos
Em que se afastaram dos demais

Este é o murmúrio das horas paradas
O rebuliço invisível do pântano
Em que os nenúfares moribundos
Nos pedem para calar os gritos de lodo

Esta é a noite que canta a uma só voz
A canção daqueles que por si ou por destino
São os desenraizados do bem-estar

Ana Wiesenberger
10-04-2015

Imagem - Edvard Munch

 

 

De Novo Na Estrada

Mountainous-Landscape-Behind-Saint-Paul-Hospital

De novo na estrada
Ignoro a paisagem
Um olhar de soslaio
De quando em quando
Ao ajeitar os óculos
Ao acender um cigarro
Baixar o vidro
Para deixar entrar o ar

 

É sempre esta imensidão de asfalto
A confundir-me as moradas
De que me esqueci desta vez?
A camisola preta com capuz
E a alma?
Essa vai pendurada na maciez do teu pêlo
Aninhada em ti numa laçada profunda
De náufrago determinado na missão de sobreviver

 

Mais um café, uma ida à casa de banho
É espanhol ou já é francês o que aqui se fala
E já com o desejo absurdo de ouvir alemão em redor
Com um alívio de filho de divorciados em fim-de-semana
No outro ramal da família que mora longe
E que já tece na distância a maçada insuportável das malas
E das horas desperdiçadas

 

Sempre na urgência de partir
Sempre na urgência de chegar

 

Ana Wiesenberger
10-04-2015

Imagem – Van Gogh

Não Me Apetece Ir

Scott Youdale

 

Não me apetece ir
Ir e Voltar
Ir e voltar
Neste exercício exímio
Da arte de não estar em lado nenhum

 

Se vou, lá não estou
Os pensamentos fogem-me para aqui
Se venho, também não consigo ser real aqui
Os pensamentos afastam-se numa corda entrançada
Em dor

 

E assim, os dias correm
Passa a vida, que não se tem
Por entre a outra, que se vai tendo
E os desejos sempre imensos e difusos
Como lagos turvos de profundidades incalculáveis
Tornam-se musgo na superfície autofágica
E impenetrável de fé

 

Ana Wiesenberger
07-04-2015

Imagem – Scott Youdale

A Páscoa

sick-dog-public-domain

A Páscoa era o almoço num restaurante rústico
Com parque para a pequenada
E jogo da malha para o meu pai e os outros
As mulheres conversavam engomadas em vestidos novos
E cabelos emproados enquanto descansavam os pés castigados
Pelos sapatos ainda muito apertados nos banquinhos de madeira
E lá iam vigiando as crianças por entre as rendas e as novidades
Da semana

 

A Páscoa era a visita obrigatória aos afilhados
As amêndoas e as prendas, os pratos atafulhados
Folares, ninhos e fios de ovo a condizer com a promessa
De renovação da vida

 

E depois, veio a Páscoa em que o borrego se transformou
Em raiva e sangue dentro de mim
Quando, ao regressar a casa, te encontrei inerte e fria
E os restos guardados para ti com amor
Se tornaram lixo e desperdício

 

Quando te enterrei
Sei bem, que uma grande parte de mim
Foi a enterrar
Contigo

 

As décadas sucederam-se
Mas desde então
A Páscoa só me sabe a morte
Não chega a assumir qualquer ressurreição
Na minha mente não há ovos coloridos
Que consigam tapar a imagem de um dos seres
Que mais amei
Só, hirta e fria

 

Ana Wiesenberger
03-04-2015

Imagem – Domínio público (internet)

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