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querotrazerapoesiaparaarua

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Os Meus Poemas São Pássaros

voegel - Franz Marc

 

Os meus poemas são pássaros

Que se soltam da gaiola do meu peito

Com sede de horizontes

E fome de ecos correspondidos


São tão livres

Que esvoaçam pela casa

À procura de janelas abertas

E quando os quero rever

Já nem todos respondem

Ao meu chamamento materno


Uns são pardais desengonçados e tontos

Gerados numa fantasia-ponte

Para um universo multicolor


Outros são corvos elegantes

A picarem o espaço frio

Para darem corpo

À minha invernia constante


Há também, as garças graciosas

Que se alojam à beira dos lagos

Em busca da harmonia

De uma paisagem cinzelada

De uma beatitude burguesa


E depois, há os gaviões e as corujas

Os primeiros em urgências de insurreição

Os segundos fechados numa conspiração

De quem sabe mais

Do que partilha


E eu que os amo a todos

Nas migalhas do meu tempo

Que se esvai

Fico, às vezes, a marejar o ar, triste

Na angústia de não lhes conhecer

O paradeiro

 

Ana Wiesenberger (in Corredores)

Imagem - Franz Marc

Por dentro do muro das horas

Carl Vilhelm Holsoe

 

Por dentro do muro das horas
Só os livros me libertam
E acariciam-me o estar num diálogo permanente

 

Há aqueles com que desperto de manhã
E os que me embalam o corpo até ao sono
Há os que me animam na hora do cansaço crepuscular
E abafam com as suas páginas sempre certas
As dúvidas, a incerteza de ter vivido o dia

 

Gosto de me envolver com as vozes de uma Rússia feudal
Com a contenção preconceituosa de uma Inglaterra do século XIX
Com a inquietação intelectual de Paris na primeira metade do século XX
E com a magia dos contos para a infância da Alemanha ou da Dinamarca

 

E depois converso com o meu companheiro de route de todas as estações e idades
Com quem, todavia, não pude partilhar a mesa no Martinho da Arcada de outros tempos
E rimos juntos do absurdo teatral das nossas vidas impregnadas de palavras
Torturadas numa busca incessante do verbo que em nós mora e onde reside
A nossa única forma de ser

 

Ana Wiesenberger
Fevereiro 2016

 

Imagem – Carl Vilhelm Holsoe

Esqueci o som dos búzios

Mar - Fernando Pimenta

Esqueci o som dos búzios

Junto dos meus ouvidos pequeninos

O Mar! O Mar!

Como podia o mar tão grande

Caber na pequenez de uma concha recortada

 

E, no entanto, ainda hoje

Gostava de os poder escutar de novo

E acreditar

Que ali dorme o mar

 

Ana Wiesenberger (in Corredores)

Imagem - Fernando Pimenta

 

3 graus lá fora, mas há sol

Claude Monet - The Red Cape

3 graus lá fora, mas há sol
Amanhã já não será assim, dizem
Regressaremos à cinzentez da invernia
Com uma promessa de neve
Que se realizará ou não

 

As saudades do meu país misturam-se em mim
Com as saudades de um sol companheiro
É difícil atravessar a opacidade dos dias
Num contínuo de ausência e depressão

 

Quando a dor se faz inércia
Já nem a proximidade da tinta e do papel
Nos convidam a ser
Passeiam-se os olhos inquietos e contudo, mortos
Ou adiados num sentir alheio
Consentimento de horas sem sentido
Numa sala de espera onde não chega a nossa vez
De onde não podemos sair

 

3 graus lá fora, mas há sol
Talvez façamos um passeio diferente à tarde
Talvez consigamos enlevar a alma prisioneira
Acima dos passos rotineiros de quem só conhece
Um pátio triste com uma frecha de céu
Que de tão escasso, nos parece mentira

 

Ana Wiesenberger
13-02-2016

 

Imagem – Claude Monet

 

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