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querotrazerapoesiaparaarua

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As Mães são Fadas

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As mães são fadas

Que voam em torno de nós

Como luzes mágicas

Para afastar a escuridão

Das nossas vidas

 

As mães são abelhas incansáveis

Que nos alimentam os dias

Que nos vestem de coragem

Que nos embalam os medos

Que nos ajudam a definir trilhos

Que têm o condão de quase sempre saber

Onde nos dói, porque nos dói

E a loucura de querer encontrar

O bálsamo para todos os nossos males

 

As mães não nasceram mães

Não puderam aprender em lado nenhum

A serem mães

As mães são humanas investidas pela magia do amor

Que as transforma em fadas

Mas nem as fadas alcançam a perfeição

Todas fazem erros e sofrem por errar

A falta de formação ou o cansaço fá-las, por vezes, baralhar

 

Quando caem em si e reconhecem o desacerto

Lançam-se de novo a inventar estratagemas

Redes de segurança para nunca mais

Nos deixar cair ou magoar

E continuam em torno de nós a voar

Com as asas já amarelecidas pelos anos

Todavia, dispostas para a sua missão continuar

E ficam tristes e desiludidas

Se de nós as queremos apartar

Nem que seja para as agruras das horas, delas poupar

 

As mães são fadas

Que iluminam a nossa existência

Com o calor do sol que a vida gera e sustém

Com o calor do fogo que nos define enquanto gente

Que conjuram a escuridão para longe de nós

 

Ana Wiesenberger

07-05-2017

 

Imagem - Auguste Renoir

 

 

 

A vida é o salão de casino exuberante

Edvard_Munch_-_At_the_Roulette_Table_in_Monte_Carlo_-_Google_Art_Project

 

A vida é o salão de casino exuberante

Onde todos queremos ganhar

Amor, fama, riqueza, felicidade

Esse pássaro raro

Que alguns juram ter visto

E outros assumem como um mito

Passado de geração em geração

Para estabelecer um objectivo comum

Na disparidade das mentes

 

Jogamos sempre

E o balanço dos dias

Ora nos traz tristeza ou alegria

Proximidade ou distância

Do patamar onde queremos chegar

 

O tempo é uma gazela veloz

Que atravessa as estações das idades

E nos leva à presença do grande ceifeiro

Que em jeito de croupier nos diz

Faites vos jeux, mesdames et messieurs

E o terror só se apodera de nós

Ao vermos o movimento da roleta cessar

E a marca no nosso número ficar

 

 

Ana Wiesenberger

17-03-2017

 

Imagem – Edvard Munch

 

 

Já não sei, se sou o martelo

strong-dream-1929(1) Paul Klee

 

Já não sei, se sou o martelo

Que teima em se abater sobre o prego

Se o prego que entorta

Mas se recusa a entrar na madeira

Como dele, aliás, se esperava

 

São muitos os dias

As cores e os sons confundem-se

As normas são para ser quebradas

Às vezes?

Muitas vezes?

Nunca?

 

A arma do crime estava na sala

Mas ninguém a viu

Era um pequeno coração de ouro

Encerrado numa caixinha bege

Com o nome da ourivesaria

Que entretanto, já não existia

Falira sob o peso

De tantas juras de amor

 

 

Ana Wiesenberger

27-03-2017

 

Imagem – Paul Klee

A poesia é a água cristalina

Raja Ravi Varma

 

A poesia é a água cristalina

Que jorra leve e livre

Da cascata do Eu recluso

Que em nós vive

 

A poesia é o grito

Feito de sombras e de fogo

De lágrimas retidas no silêncio

De mortalhas dos sonhos

Que em nós sepultámos

 

A poesia é Sol, luar

E também chuva

E murmúrio com maresia

Restolhar de folhas

Leque caprichoso

Com que o poeta

Nos deslumbra

Ao abrir e fechar

As emoções dentro de nós

 

Ana Wiesenberger

21-03-2017

 

Imagem – Raja Ravi Varma

 

 

Bom dia, Morte!

800px-Vincent_van_Gogh_-_Head_of_a_skeleton_with_a_burning_cigarette_-_Google_Art_Project

 

Bom dia, Morte!

É altura de conversarmos;

Estou farta do teu cinismo

Do teu rosto fechado, impassível

Perante a merda das tuas escolhas

 

Mas, afinal, que raio de porra

Te passa pela caveira?

Tomas drogas? Bebes demais?

Ou és meramente negligente

Preguiçosa demais para pensar

Medir situações, avaliar?

 

A tua cegueira enfurece-me

Levas crianças, jovens

Gente de boa-fé

Que em nada prejudicou os demais

E deixas para trás criminosos

Que espalham sangue e dor

Que destroem e aniquilam

Lentamente ou de uma só vez

Tantos seres frágeis e inocentes

 

Estás a rir-te da minha audácia?

Não tenho medo dos teus ardis

Podes cortar o fio da minha respiração

De um só golpe

Mas nunca poderás apagar

As palavras que escrevi

 

Ana Wiesenberger

17-03-2017

 

Imagem – Vincent Van Gogh

 

 

 

Abro os olhos

The_Icebergs_(Frederic_Edwin_Church)

 

Abro os olhos

Depois a janela

Sento-me na cama

Cigarro entre os dedos

Caneca de café na outra mão

E o trinar dos pássaros

Misturado com o ronco dos carros

Entra pelo quarto

 

 

Não quero perder os farrapos do sonho

Antes de os encaixar

De lhes dar sentido na moldura da realidade

Porque será assim?

Porque é quase sempre assim

Somos humanos, logo precisamos de descodificar as coisas

Para afastar o medo que o desconhecido nos causa

 

 

Não há nada a temer

A não ser as palavras

Li isto em qualquer lado

E ficou encravado em mim

Como um punhal

 

 

O puzzle por fazer volta a zumbir à minha volta

Que peças tão estranhas

E contudo, tão simples

Talvez, não o queira ordenar como um todo

Assumir como uma premonição

Parece-me, que prefiro afastá-lo

Com um gesto automático

De quem se defende de um ramo

Que nos pode ferir o rosto

Ao caminharmos por uma vereda no campo

 

 

As mesas redondas compostas com as crianças

O círculo da vida

Os desenhos infantis sempre renovados

Que a professora guarda no armário da sala

Porque o tempo é célere

E os petizes em breve deixam de o ser

Para dar lugar a outros

 

 

Pergunto à minha mãe quando e como morri

Ela não se lembra

Surpreende-me, que ela não se recorde

A lápide do cemitério surge num instante relâmpago

Para logo desaparecer, como se brincasse às escondidas

Só consegui ver o início do meu nome

 

 

Entretanto tu sorris

Encostas a tua cabeça à minha

Dizes-te cansado

E eu corroboro o teu cansaço com o meu

Mas não deixamos de sorrir cúmplices

No teu olhar a vivacidade saudável

De quando éramos jovens

Antes do teu cancro

Antes da minha doença absurda

 

 

Há um quiosque onde compro

Queijo fresco muito branco

E o homem que me atende

Fala sobre os delírios de viver

Naquela cidade da Alemanha

Contraponho, que sim

Mas não durante muito tempo

 

 

A conta é avultada

Pago em moedas e dois isqueiros

Um por ti; outro por mim, já se vê

Ambos fizemos o percurso

Para o abraço do urso branco

Em anos de fumo e fantasia

 

 

Não quero, que te despeças de mim

Não quero, despedir-me de ti

Fiquemos, mais um pouco

Por aqui

 

 

Ana Wiesenberger

13-03-2017

 

Imagem – Frederic Edwin Church

 

 

 

 

É tão bom disparatar

David Cory

 

É tão bom disparatar

E com as ideias e as palavras brincar

Como se a loucura fosse uma blusa

Linda de se usar

Para mais tarde, se cansar

Com severa racionalidade lavar

 

É tão bom entre o delírio das nuvens saltar

E muros de paciência e bom senso galgar

Como se fôssemos meninos e meninas

À vida a brincar

E pudéssemos em espasmos de riso

Sobre a relva rebolar

E o dia na banheira com patos de borracha

E o cuidado das mãos das nossas mães acabar

 

É tão bom doidejar

Sem ter o nonsense como base para se agarrar

Porque para algo se justificar

Já é querer o bom juízo não dispensar

E a brincadeira toda estragar

 

É tão bom além de nós passear

E o tempo longe da casca degustar

Os nossos medos e os nossos males

Numa cova enterrar

E assim, da prisão da tristeza se libertar

 

Ana Wiesenberger

05-03-2017

 

Imagem – David Cory

 

 

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