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querotrazerapoesiaparaarua

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Já não sei, se sou o martelo

strong-dream-1929(1) Paul Klee

 

Já não sei, se sou o martelo

Que teima em se abater sobre o prego

Se o prego que entorta

Mas se recusa a entrar na madeira

Como dele, aliás, se esperava

 

São muitos os dias

As cores e os sons confundem-se

As normas são para ser quebradas

Às vezes?

Muitas vezes?

Nunca?

 

A arma do crime estava na sala

Mas ninguém a viu

Era um pequeno coração de ouro

Encerrado numa caixinha bege

Com o nome da ourivesaria

Que entretanto, já não existia

Falira sob o peso

De tantas juras de amor

 

 

Ana Wiesenberger

27-03-2017

 

Imagem – Paul Klee

A poesia é a água cristalina

Raja Ravi Varma

 

A poesia é a água cristalina

Que jorra leve e livre

Da cascata do Eu recluso

Que em nós vive

 

A poesia é o grito

Feito de sombras e de fogo

De lágrimas retidas no silêncio

De mortalhas dos sonhos

Que em nós sepultámos

 

A poesia é Sol, luar

E também chuva

E murmúrio com maresia

Restolhar de folhas

Leque caprichoso

Com que o poeta

Nos deslumbra

Ao abrir e fechar

As emoções dentro de nós

 

Ana Wiesenberger

21-03-2017

 

Imagem – Raja Ravi Varma

 

 

Bom dia, Morte!

800px-Vincent_van_Gogh_-_Head_of_a_skeleton_with_a_burning_cigarette_-_Google_Art_Project

 

Bom dia, Morte!

É altura de conversarmos;

Estou farta do teu cinismo

Do teu rosto fechado, impassível

Perante a merda das tuas escolhas

 

Mas, afinal, que raio de porra

Te passa pela caveira?

Tomas drogas? Bebes demais?

Ou és meramente negligente

Preguiçosa demais para pensar

Medir situações, avaliar?

 

A tua cegueira enfurece-me

Levas crianças, jovens

Gente de boa-fé

Que em nada prejudicou os demais

E deixas para trás criminosos

Que espalham sangue e dor

Que destroem e aniquilam

Lentamente ou de uma só vez

Tantos seres frágeis e inocentes

 

Estás a rir-te da minha audácia?

Não tenho medo dos teus ardis

Podes cortar o fio da minha respiração

De um só golpe

Mas nunca poderás apagar

As palavras que escrevi

 

Ana Wiesenberger

17-03-2017

 

Imagem – Vincent Van Gogh

 

 

 

Abro os olhos

The_Icebergs_(Frederic_Edwin_Church)

 

Abro os olhos

Depois a janela

Sento-me na cama

Cigarro entre os dedos

Caneca de café na outra mão

E o trinar dos pássaros

Misturado com o ronco dos carros

Entra pelo quarto

 

 

Não quero perder os farrapos do sonho

Antes de os encaixar

De lhes dar sentido na moldura da realidade

Porque será assim?

Porque é quase sempre assim

Somos humanos, logo precisamos de descodificar as coisas

Para afastar o medo que o desconhecido nos causa

 

 

Não há nada a temer

A não ser as palavras

Li isto em qualquer lado

E ficou encravado em mim

Como um punhal

 

 

O puzzle por fazer volta a zumbir à minha volta

Que peças tão estranhas

E contudo, tão simples

Talvez, não o queira ordenar como um todo

Assumir como uma premonição

Parece-me, que prefiro afastá-lo

Com um gesto automático

De quem se defende de um ramo

Que nos pode ferir o rosto

Ao caminharmos por uma vereda no campo

 

 

As mesas redondas compostas com as crianças

O círculo da vida

Os desenhos infantis sempre renovados

Que a professora guarda no armário da sala

Porque o tempo é célere

E os petizes em breve deixam de o ser

Para dar lugar a outros

 

 

Pergunto à minha mãe quando e como morri

Ela não se lembra

Surpreende-me, que ela não se recorde

A lápide do cemitério surge num instante relâmpago

Para logo desaparecer, como se brincasse às escondidas

Só consegui ver o início do meu nome

 

 

Entretanto tu sorris

Encostas a tua cabeça à minha

Dizes-te cansado

E eu corroboro o teu cansaço com o meu

Mas não deixamos de sorrir cúmplices

No teu olhar a vivacidade saudável

De quando éramos jovens

Antes do teu cancro

Antes da minha doença absurda

 

 

Há um quiosque onde compro

Queijo fresco muito branco

E o homem que me atende

Fala sobre os delírios de viver

Naquela cidade da Alemanha

Contraponho, que sim

Mas não durante muito tempo

 

 

A conta é avultada

Pago em moedas e dois isqueiros

Um por ti; outro por mim, já se vê

Ambos fizemos o percurso

Para o abraço do urso branco

Em anos de fumo e fantasia

 

 

Não quero, que te despeças de mim

Não quero, despedir-me de ti

Fiquemos, mais um pouco

Por aqui

 

 

Ana Wiesenberger

13-03-2017

 

Imagem – Frederic Edwin Church

 

 

 

 

É tão bom disparatar

David Cory

 

É tão bom disparatar

E com as ideias e as palavras brincar

Como se a loucura fosse uma blusa

Linda de se usar

Para mais tarde, se cansar

Com severa racionalidade lavar

 

É tão bom entre o delírio das nuvens saltar

E muros de paciência e bom senso galgar

Como se fôssemos meninos e meninas

À vida a brincar

E pudéssemos em espasmos de riso

Sobre a relva rebolar

E o dia na banheira com patos de borracha

E o cuidado das mãos das nossas mães acabar

 

É tão bom doidejar

Sem ter o nonsense como base para se agarrar

Porque para algo se justificar

Já é querer o bom juízo não dispensar

E a brincadeira toda estragar

 

É tão bom além de nós passear

E o tempo longe da casca degustar

Os nossos medos e os nossos males

Numa cova enterrar

E assim, da prisão da tristeza se libertar

 

Ana Wiesenberger

05-03-2017

 

Imagem – David Cory

 

 

Não sei, se me escondo

Henri Matisse still-life-with-books-and-candle-1890

 

Não sei, se me escondo

Ou se me abrigo apenas

Sob as múltiplas capas

Ao longo do dia

 

Quando em redor de mim

Tudo é cinzento nu

Escalda-me o sol da América Latina

Com Isabel Allende, Garcia Marquez

E Vargas Llosa

 

Viajo no tempo e passeio-me

Na Berlim de outrora com Hans Fallada

Estremeço com os solavancos

Da história de uma setter irlandesa com Stephanie Zweig

E rio-me com os disparates de Kishon

 

Mergulho na angústia do êxodo rural da América de Steinbeck

Dou um salto à minha amada Lisboa com Tabucchi

E penetro nos meandros da escuridão da natureza humana

Nas tramas surpreendentes de Patricia Highsmith

 

Livros para acordar

Livros para adormecer

E vejo-me como Firmin de Sam Savage

Um rato ávido de letras

A devorar páginas para se manter vivo

 

Ana Wiesenberger

08-02-2017

 

Imagem – Henri Matisse

Uns E Outros

T14302

 

Uns e outros

São os dias que passam por nós

Ecos de riso, queixas, frases sem sentido

Interjeições convenientes para preencher um vazio

No diálogo, no fio imperfeito da nossa comunicação

 

Uns e outros

São os dias que passam por nós

Júbilo e dor

Amores e desamores

Nascimentos que festejamos

Velórios a que assistimos

Recordações dos laços que foram

Ou perduram dentro de nós

 

Uns e outros

São os dias que passam por nós

O tempo que ora corre como um regato veloz

Ou adormece como um ancião cansado

E faz coxear os ponteiros do relógio

 

Uns e outros

São os rostos que passaram por nós

Que nos amaram

Que nos feriram

Que nos esqueceram

Que esquecemos

Lengalengas de infância encravadas na memória

Papagaios de papel desbotados

A vaguear em sonhos perdidos

 

Ana Wiesenberger

04-02-2017

 

Imagem – Yves Tanguy

Quando Passavas na Avenida

 Quando passavas na avenida
Com o teu passo elástico
Eu seguia a energia do teu corpo
Com a gula de um gato
A mirar um pires de leite
A deslocar-se para longe
Dos seus bigodes ávidos

Entretive-te no meu olhar
Passeei-te pelas minhas palavras
Senti o esforço dos teus músculos tensos
A dominar o arco das tuas expressões
Do teu ser inquieto, altivo e distante

Adivinhava-te no fogo dos olhos
O calor da tua libido cintilante
Estremecia colada à brusquidão
Dos teus movimentos naturais
Que em mim suscitavam desejos
Que eu não queria assumir

Apetecia-me entrar nos teus sonhos
Sentir cada centímetro da tua pele
Sob os meus lábios
Abocanhar-te a nuca quente
Misturar-me contigo
Numa dimensão alucinada
Ser seiva e raiz
Uivo e rugido
Num bosque de outra era

E contudo, só as nossas mãos se tocaram
Ao de leve, num momento breve, desajeitado
Na troca de um livro
De que ambos gostávamos
E toda a paixão
A real e a imaginária
Esvaiu-se por entre Os Vagabundos de Gorki
Adormeceu no colo de Teresa Raquin


Ana Wiesenberger
(in Erotismus, Impulsos E Apelos)

Poema dito no programa "Amantes da Poesia" de Maria Isabel Rodrigues, na Popularfm

Raramente Choro

 

Raramente choro

E no entanto, quando o faço

Pareço querer transformar o Tejo e o Sado

No Amazonas

 

As lágrimas não trazem alívio

Destroem pestanas

Deixam os olhos inchados

E no dia seguinte, fazem-nos sentir pior

Ao vermos a ruína em que a tempestade

Transformou os nossos rostos

 

Não sei, porque elas me acontecem

Há tanta dor reunida em dias de olhos secos

Chego a pensar, que são matreiras

E esperam pelo momento

Em que baixamos a guarda à tristeza

Só porque a ela já nos habituámos

 

Sempre achei, que Hemingway tinha razão

A man can be destroyed but not defeated

Daí, as guerras não terem fim

E as vidas tortuosas se alongarem

Em vez de se extinguirem

Dobradas sob a desesperança dos dias

 

Hoje à noite chorei

Mas já untei as pálpebras e as bochechas

De creme reparador

Não me apetece empanturrar-me de realidade

Antes de tomar o pequeno-almoço

É pena, que ainda não inventassem

O sérum perfeito para compor

As mossas e as marcas do desassossego na alma

 

Ana Wiesenberger

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