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querotrazerapoesiaparaarua

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Abro os olhos

The_Icebergs_(Frederic_Edwin_Church)

 

Abro os olhos

Depois a janela

Sento-me na cama

Cigarro entre os dedos

Caneca de café na outra mão

E o trinar dos pássaros

Misturado com o ronco dos carros

Entra pelo quarto

 

 

Não quero perder os farrapos do sonho

Antes de os encaixar

De lhes dar sentido na moldura da realidade

Porque será assim?

Porque é quase sempre assim

Somos humanos, logo precisamos de descodificar as coisas

Para afastar o medo que o desconhecido nos causa

 

 

Não há nada a temer

A não ser as palavras

Li isto em qualquer lado

E ficou encravado em mim

Como um punhal

 

 

O puzzle por fazer volta a zumbir à minha volta

Que peças tão estranhas

E contudo, tão simples

Talvez, não o queira ordenar como um todo

Assumir como uma premonição

Parece-me, que prefiro afastá-lo

Com um gesto automático

De quem se defende de um ramo

Que nos pode ferir o rosto

Ao caminharmos por uma vereda no campo

 

 

As mesas redondas compostas com as crianças

O círculo da vida

Os desenhos infantis sempre renovados

Que a professora guarda no armário da sala

Porque o tempo é célere

E os petizes em breve deixam de o ser

Para dar lugar a outros

 

 

Pergunto à minha mãe quando e como morri

Ela não se lembra

Surpreende-me, que ela não se recorde

A lápide do cemitério surge num instante relâmpago

Para logo desaparecer, como se brincasse às escondidas

Só consegui ver o início do meu nome

 

 

Entretanto tu sorris

Encostas a tua cabeça à minha

Dizes-te cansado

E eu corroboro o teu cansaço com o meu

Mas não deixamos de sorrir cúmplices

No teu olhar a vivacidade saudável

De quando éramos jovens

Antes do teu cancro

Antes da minha doença absurda

 

 

Há um quiosque onde compro

Queijo fresco muito branco

E o homem que me atende

Fala sobre os delírios de viver

Naquela cidade da Alemanha

Contraponho, que sim

Mas não durante muito tempo

 

 

A conta é avultada

Pago em moedas e dois isqueiros

Um por ti; outro por mim, já se vê

Ambos fizemos o percurso

Para o abraço do urso branco

Em anos de fumo e fantasia

 

 

Não quero, que te despeças de mim

Não quero, despedir-me de ti

Fiquemos, mais um pouco

Por aqui

 

 

Ana Wiesenberger

13-03-2017

 

Imagem – Frederic Edwin Church

 

 

 

 

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