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A poesia é a água cristalina

Raja Ravi Varma

 

A poesia é a água cristalina

Que jorra leve e livre

Da cascata do Eu recluso

Que em nós vive

 

A poesia é o grito

Feito de sombras e de fogo

De lágrimas retidas no silêncio

De mortalhas dos sonhos

Que em nós sepultámos

 

A poesia é Sol, luar

E também chuva

E murmúrio com maresia

Restolhar de folhas

Leque caprichoso

Com que o poeta

Nos deslumbra

Ao abrir e fechar

As emoções dentro de nós

 

Ana Wiesenberger

21-03-2017

 

Imagem – Raja Ravi Varma

 

 

No País das Histórias de Encantar

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Estava cansada e fui até ao país das Histórias de Encantar
Mas saí de lá ainda mais desencantada
A Bela Adormecida queixa-se de insónias constantes
Enquanto o seu belo Príncipe de outrora
Faz ecoar os seus roncos expressivos por todo o palácio

 

Ela, que até, se tinha congratulado
Com a sorte de ser estéril
Lamenta agora o vazio dos seus dias
Se tivesse tido prole
Poderia entreter-se a dar colo aos netos
E a correr as tendas dos artesãos
Em busca de brinquedos perfeitos

 

A beleza, ainda a conservara muito tempo
Mas depois, a anorexia deu lugar à bulimia
E arruinou a linha esbelta da sua figura

 

Na porta ao lado, a cena não era mais animadora
A Gata Borralheira sofre paciente e triste
As artroses e as poliartralgias
Herança das sevícias domésticas da madrasta
Que longos anos perduraram

 

Continua meiga e afável com todos
Queixa-se ao de leve da viuvez
E da vida atarefada dos filhos gémeos
Que trabalham na Wall Street da Avenida das Fadas

 

Quando a saúde lhe permite, dá festas de caridade
Ajuda órfãos e viúvas carenciadas
Inaugurou há pouco uma Associação de Protecção Animal
Nuns hectares baldios de que não precisava
Coitadinha, ainda me deu um frasco de geleia e biscoitos caseiros
Antes de eu franquear a porta de saída

 

A Alice sofre de neurastenia grave
E da esquizofrenia, que já na infância se tornara evidente
Todos os dias manda abrir buracos no chão do jardim
Quer regressar ao País das Maravilhas que nunca devia ter abandonado
Mas não se lembra onde era o túnel da entrada
Todos sabem, que não há nada a fazer
Os físicos mais célebres e afamados dos quatro cantos do mundo
Vêm vê-la a pedido da família, mas não a conseguem tratar

 


O Patinho Feio, que afinal era um cisne
Não aguentou os traumas de criança
E é um alcoólico desesperado
Sempre com o olhar no vazio
A balbuciar por entre os dias
Que ninguém o entende
Antes ou depois de meter o bico na garrafa

 

O Gato das Botas, então
Deixou-me dilacerada
A gangrena instalou-se lhe há muito nas pernas
Mas ele teima em viver assim até ao fim
E a carne vai-lhe morrendo gradualmente sob o pêlo
Enquanto ele delira sobre os seus feitos de outrora

 

Hansel e Gretel estão bem
Pelo menos, um com o outro
A comunidade não aceita a relação incestuosa
Mas eles pareceram-me muito satisfeitos
E vi-os sorrir, cúmplices
Ao mostrarem-me a campa dos pais nas traseiras

 

Foram extremamente simpáticos
E nem me queriam deixar partir
Todavia, rebentaram em mim, ecos de psicologia
Aos solavancos
E ao apanhar o fio transversal das relações de causalidade
Entre vítimas e agressores
Julguei por avisado, afastar-me dali
Antes que eles me começassem a encher a pança com assados
Doces e iguarias mais

 

Ana Wiesenberger  (in Corredores)
13-06-2012

Imagem - Marina Puzyreva

 

 

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