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A poesia é a água cristalina

Raja Ravi Varma

 

A poesia é a água cristalina

Que jorra leve e livre

Da cascata do Eu recluso

Que em nós vive

 

A poesia é o grito

Feito de sombras e de fogo

De lágrimas retidas no silêncio

De mortalhas dos sonhos

Que em nós sepultámos

 

A poesia é Sol, luar

E também chuva

E murmúrio com maresia

Restolhar de folhas

Leque caprichoso

Com que o poeta

Nos deslumbra

Ao abrir e fechar

As emoções dentro de nós

 

Ana Wiesenberger

21-03-2017

 

Imagem – Raja Ravi Varma

 

 

Nunca Gravei As Minhas Iniciais

Vincent Van Gogh - Mulberry Tree

Nunca gravei as minhas iniciais
Com as de outrem
Num coração tosco
Num tronco de árvore do jardim

 

Nunca o fiz também
Nas carteiras de madeira da escola
Daquele tempo
Talvez nunca sentisse vontade
De associar o meu nome a outro nome
Como se soubesse de antemão
Que tal nunca faria sentido

 

Vivi, antes, como uma árvore
Que cresce em ramos
Ao Longo das sucessivas Primaveras
Que em si a força encerra

 

Expandi-me num processo de integração consentida
Sem perder a identidade
Acrescentei, apenas, à minha existência os eleitos
Um filho, um marido, vários seres lindos de quatro patas
Em que consigo ver o meu rosto oculto

 

E assim, perturba-me, por vezes
A facilidade com que as pessoas se colam umas às outras
Nu ma fúria desmesurada de criar sentido na ausência dele
Da construção de um espanta-espíritos débil
Para fazer face à morte – ao fim

 


Ana Wiesenberger
28-03-2015

Imagem – Vincent Van Gogh

Electrão

Jeremy Malvey

Electrão
Protão
Neutrão
Campos magnéticos perdidos na memória
Guardados no tempo das batas brancas
E do cheiro químico do laboratório
Que nos transmudava os ânimos em festa

 

Os convívios de sábado à tarde na cantina do liceu
E as primeiras meias de senhora; nylon, cor de pérola
A arranharem-me as pernas desajeitadas
Sob a saia de xadrez que me roubava o à vontade

 

Esse foi o tempo maracujá do exótico da descoberta
De que os opostos se atraem e os iguais se repelem
Embora isso só nos transtorne a vida e o estar

 

Mais tarde, a época dos espelhos, das luzes
E dos cromados das viaturas de duas e quatro rodas
Em que partíamos numa realização de som e de fúria
Que para tantos terminou em cinza

 

E agora, no tempo ameno dos lilases
Balança-se tudo na arca das recordações
E o início da jornada, o cheiro de baunilha do jardim-escola
Entranhado nas minhas narinas de menina
Já não me parece tão inócuo
Porque, afinal, delineou o meu caminho até ti
Talvez porque o cansaço de ser vermelho e preto
Me levasse a procurar o rosa que abarcava todos os nossos caprichos
E birras
Sem nunca deixar de ser um regaço de ternura, um reduto de apaziguamento
A caverna apetecida onde os nossos olhos viviam as aventuras coloridas
Que passavam no ecrã gigante da alvura da parede na nossa sala de cinema

 

Ana Wiesenberger
11-02-2015

Imagem - Jeremy Malvey

Não sei, se foi o verbo nos teus lábios

Head-of-a-woman-seen-from-behind - François Boucher

Não sei, se foi o verbo nos teus lábios
Que me prendeu o olhar, a atenção
Ao teu porte carregado de ironia
E distanciamento crítico pelas coisas

 

À frente do anfiteatro
Antes e depois dos seminários
Falávamos muito e a tua proximidade
Apetecia-me de um modo diferente
Difícil de catalogar

 

Talvez, não fosse bem isso
Talvez eu me recusasse a fazê-lo
Por recear, perder a dimensão
Do que é sensato, normativo
Ideal

 

No entanto, quando a idade avança
E a memória dobra em nós
A multiplicidade de momentos vividos
Permitimo-nos, por vezes
Vaguear para longe dos nossos pressupostos
E resta-nos admitir a estranheza de tantos Eus
Que fomos e deixámos pelos caminhos
Unhas dolorosas que cortámos e voltaram sempre
A crescer
Na penumbra dos nossos esconsos
Nos armários dos nossos quartos
Que invadem a nossa vigília
Quando apagamos a luz para descansar

 

Ana Wiesenberger
2013

Imagem - François Boucher

 

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