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querotrazerapoesiaparaarua

querotrazerapoesiaparaarua

Eles são tantos

Eles são tantos
E tão poucos
Os silêncios que me abafam
A vontade de ser Sol e Lua
Tarde e Noite
Verão entrelaçado da invernia mais glacial
Alguma vez vivida

Eles são tantos
E tão poucos
Os dias assimilados no calendário
Com uma fome frutífera

Eles são tantos
E tão poucos
Os anos que por nós deslizam
Sem vermos
E os outros que ainda virão
Estradas bifurcadas, estranguladas
Entre o que foi e poderia ter sido
Iluminadas por um letreiro em que o Porvir
É uma estreia sempre adiada
Pelo presente que não conseguimos construir

Ana Wiesenberger
10-11-2018

Imagem – Salvador Dali

rose-meditative Salvador Dali

 

 

Há Cavalos a Galopar no Meu Peito

Franz_Marc

Há cavalos a galopar no meu peito

Quando desligo a luz para adormecer o dia

 

O tropel dos cascos marca a compasso louco

O peso das nuvens que me cercam as horas

A tirania da ausência que desfaz a alma

Com a precisão fria de um talhante

A preparar carne picada para o almoço lento

Dos que não se sentem assassinos

 

Ana Wiesenberger

06-11-2018

 

Imagem – Franz Marc

 

Talvez sejamos apenas momentos

Henri Matisse - Olhos Azuis

 

Talvez sejamos apenas momentos

Partículas do real visíveis

No tempo útil de aparecer

Para depois nos convertermos

Em ausência e esquecimento

Expoentes do Não-Ser

 

Talvez essa seja a nossa condição

Efémeros luminosos como pirilampos

Irremediavelmente em busca do outro

Ébrios da ilusão de juntos fazer sentido

 

Ana Wiesenberger

01-09-2018

 

Imagem – Henri Matisse

 

 

 

O Tempo dentro de nós é um fluir constante

Magritte 1

O tempo dentro de nós é um fluir constante

Onde o passado vive de mãos dadas com o devir

E se não logra furar o filtro da memória consentida

Assalta-nos em sonhos transpondo o muro frágil que erguemos

Para nos defendermos da dor de sentir o que foi e já não será

 

O sono levou-me a noite passada aos corredores da escola

O mundo de tinta, papel e crescimento onde eu era feliz

Fiz revisões dos verbos no passado numa turma

Fui buscar os testes para a seguinte à reprografia

O passo sempre apressado, os minutos sempre calculados

A vontade convicta a tecer malabarismos para afastar os escolhos

 

Noutra esquina onírica deambulei pelas ruas a gritar: Becky! Becky!

E a alegria de vê-la, de encontrá-la, depois de se ter perdido de mim

Foi tão forte que me devolveu à realidade e deixou na chávena de café

O travo amargo de uma saudade irremediável

 

Ana Wiesenberger

01-08-2018

 

Imagem – René Magritte

Dos Laços Nascem Os Abraços

Burton Silverman

Dos laços nascem os abraços

Ou será, que os braços pedem laços

Por estarem cansados de ser baços

E querem cor para os seus passos

 

Os laços são borboletas coloridas

Que pousam na cabeça das meninas

Como premonições do que há-de vir

Laços que os seus braços hão-de pedir

Sem revelar os outros em que irão cair

 

Dos laços, só há que temer o abraço

Quando o nó em vez de lasso

Sufoca e derrota o teu passo

E destrói a tua vontade de viver no paço

 

Ana Wiesenberger

03-07-2018

 

Imagem – Burton Silverman

 

 

Há pessoas barco

Morgan Russell 3

Há pessoas barco

Pessoas cesto

Pessoas quadro

Pessoas movimento

Inacção

Fuga ou permanência

 

Pessoas faca

Pessoas garfo

Pessoas sombra

E pessoas muro

 

Numas partimos

Noutras perdemo-nos

Somos engolidos

Num momento de loucura

Ou desatenção fatal

 

Ser

Não ser

Ser ainda

Querer ser

Não conseguir ser

 

Estátua

Meteorito

Pêndulo

Remoinho de luz

Farpa na escuridão

 

 

Ana Wiesenberger

24-04-2018

 

Imagem – Morgan Russell

 

 

1º de Maio

Haymarket

 

1º de Maio

 

Há dias que são apenas números

A hora que o despertador marcava

Quando despertámos

A identificação do autocarro

Que nos leva para o emprego

A data que escrevemos no quadro

Antes de dar início a mais uma aula

 

Há dias que nos medem a existência

E nos recordam o tempo que passou

A data de Aniversário, a Passagem do Ano

O Natal, a Páscoa, até mesmo o Carnaval

Com ou sem folia

 

Há dias historicamente comemorativos

Mas lamentavelmente isentos de significado

Na nossa memória infiel

Ou na falta de interesse e conhecimento

Com que sulcamos a vida

 

Há outros que se erguem em nós

Com um frémito de orgulho e entusiasmo

Que nem a desilusão dos outros que depois vieram

Consegue remetê-los ao esquecimento

 

E há dias que deviam permanecer em nós

Com o peso da luta e da resistência

Da afirmação da coragem

Da barreira do medo superada

E muitas vezes chacinada atrás das grades

Ou derramada em sangue pelas ruas

 

O 1º de Maio de 1886 em Chicago

Levou à praça a exigência das oito horas laborais

Que hoje damos como garantidas

Houve feridos, houve mortes, prisões

Mas não desistência nem conformismo

E por isso, desde 1889 que o 1º de Maio

Foi consagrado Dia do Trabalhador

 

Em Portugal houve sempre vozes

Que se atreveram a gritar a força deste dia

Sob os cassetetes do regime fascista

E o risco da prisão, da tortura e do degredo

Hoje podemos reivindicar

Vivemos em democracia

Triste é constatar, que muitos gostam de falar

Mas não têm empenho, nem vontade para lutar

Pelo muito que ainda há a conquistar

 

Ana Wiesenberger

 

 

Cadáveres Adiados Vasculham Nas Cinzas dos Dias

Marc Chagall - Remembrance

Cadáveres adiados vasculham nas cinzas dos dias

O sentido perdido das coisas

Sem sentido nenhum

 

Como se uma vela pudesse eliminar a escuridão

Como se um gesto pudesse orientar a agulha da bússola

Para um paraíso artificial

 

Engolem, turvos

As promessas datadas em decomposição

E fecham os olhos, covardes

Para ignorarem os vermes; resquícios perenes da verdade

 

Nada se perde

Tudo se transforma

O Lavoisier sempre tinha razão

 

 

Ana Wiesenberger

21-03-2018

 

Imagem - Marc Chagall

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