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querotrazerapoesiaparaarua

querotrazerapoesiaparaarua

Agora que já não estás aqui

Pai

Agora que já não estás aqui

Que tento coser os teus contornos

Nas sombras de outras velas

Que se passeiam à luz consciente da noite

Que nos traz a todos a saudade

Do que não soubemos reter

 

Passam as vozes e os momentos de outrora

Numa passerelle de vida inacabada

Ressequidos num passado de tronco morto

 

Passam as recordações do que queríamos fazer

E não conseguimos

Rolam as lágrimas pelas nossas faces desprevenidas

A esvair o calor dos dias

 

Ah, se eu pudesse

Se eu fosse capaz de franquear novamente

As portas da infância

Se eu te pudesse dizer

No meu modo desajeitado, mas exigente

Fica connosco, mais um pouco, Pai!

Temos tanto para conversar

 

Ana Wiesenberger

A Dor É Uma Aprendizagem

Gustave Caillebotte

A dor é uma aprendizagem

Uma vereda a percorrer

Apesar do medo

 

Não é possível viver

Sem a conhecer

Uns mais; outros menos

Uns com mais coragem,

Resiliência

Outros quase envergonhados

A tentarem fugir

Como se ainda fossem crianças

E quisessem tapar a cabeça com o cobertor

Para se esconderem do monstro

Que habita a escuridão do quarto

 

Uns e outros

Mendigos errantes

Em busca da luz opaca:

Esquecimento, entorpecimento dos sentidos

Ânimo falso para prosseguir o caminho

 

Ana Wiesenberger

28-02-2021

 

Que Halloween Estranho Este

Que Halloween estranho este

Não há risos mascarados pelas ruas

Nem ninguém toca à campainha

Para pedir doces

Ou pregar partidas

 

Gostemos ou não

Destas realidades culturais assimiladas

É triste ver um espaço vazio

No lugar que tão alegremente

Poderiam ter preenchido

 

Este é o Halloween na Alemanha de 2020

Como sempre fui ao cemitério

Deixar flores na campa dos meus sogros

O meu pai foi cremado em 2009

A minha mãe está felizmente viva em Portugal

E os meus amigos e filhos de quatro patas ausentes

Estremecem no meu peito, embalados pela saudade

 

Esta noite não é de terror

Nem de medo

É de reconciliação

Entre a luz e as trevas

O que já foi

E o que ainda é

Sejamos unos

No espelho oblíquo

Da energia eterna

 

Ana Wiesenberger

31-10-2020

 

 

 

 

 

Quarentena

Salvador Dali

Quarentena

 

À força de se esperar

Não se espera

Os dias passam por nós

Numa dormência estúpida

Intercalada por momentos de inquietação

 

Não fui a única a ceder ao impulso de arrumar

Inventariar o útil e o dispensável

A julgar pelos sacos recorrentes

Junto aos contentores do lixo

Em tempos de caos

O medo leva-nos a procurar a ordem

A ilusão de que podemos moldar a realidade

Com as nossas mãos humanas

 

Nas ruas as pessoas deslizam

Como ratos inseguros num território desconhecido

E se param a uma distância confortável

Para cumprimentar amigos e vizinhos

Fazem-no com os olhos errantes

Ansiosos por comunicar

Arredios pelo hábito construído da desconfiança

 

Os que se trancam em casa

Barricados em obediência e pânico

Vomitam em expressões comezinhas e lugares-comuns

A inveja dos audazes que vêem por detrás da vidraça

Secretamente desejosos de os ver cair doentes

Por não contarem os passos e os minutos

Que se atrevem a viver fora de portas

Em tempos de pandemia

 

Quando o vírus se afastar

Da contabilidade diária no ecrã

Teremos de reaprender a proximidade

Deixar de sentir as mãos e os braços dos outros

Como pás a abrir-nos o leito de morte

 

Ana Wiesenberger

24-04-2020

Imagem – Salvador Dali

Festejar hoje Abril

Festejar hoje Abril

É manter a história de um povo viva

Nas gerações que não o viveram

Mas que dele beneficiam

 

É enfrentar a incredibilidade nos rostos jovens

Perante a realidade histórica do antes e depois

Que não conseguem vislumbrar

 

Um dia virá em que o fulgor de Abril

Só será testemunhado nas fotografias antigas

Num compêndio de história

E será mais uma data a aprender

Tão distante dos dias como para nós

A Implantação da República e a Restauração

 

Não é possível contrariar o impacto do tempo

Mas é possível vivificar uma mensagem

Ilustrá-la com o registo artístico de tantos

Que lhe souberam dar voz, cor e melodia

 

Por isso, hoje e sempre

Cabe-nos celebrar o 25 de Abril

Com o peito aberto

Em cravo, coragem e caminho

 

Ana Wiesenberger

Os Meus Poemas Estão Gastos, Puídos

Milan Thomka Mitrovsky

Os meus poemas estão gastos, puídos

Como roupas velhas

Máscaras descartadas para o vazio

Das peças que há muito saíram de cena

 

Leio-os, como se neles acariciasse

O desejo de um devir que embalo

Numa incerteza de maré baixa

Névoa a suplicar raios de Sol

Estrelas que iludam e animem

A minha vontade de sonhar universos

Nos labirintos das folhas brancas

 

Ana Wiesenberger

01-01-2020

Imagem - Milan Thomka Mitrovsky

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