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querotrazerapoesiaparaarua

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Este Corpo É Uma Hiena Doente

Arnold Böcklin

 

Este corpo é uma hiena doente

Condenada a errar a sua fome permanente

Que a ausência de dentes capazes

Não lhe permite saciar

 

E contudo, tenho voos de águias

A explodirem no meu peito imenso

E prelúdios de caça grandiosa

Em esgares de lobo premeditado

De olhos vagabundos de horizontes

 

Dói-me a insensatez deste vulto

Que ora exulta, ora cai

Ora é, ora não é

Querendo picar o ar como os falcões

Enquanto rasteja humilde como as cobras

Amedrontado, inquieto, preso

Nos ecos insofismáveis das vísceras mestras

 

Ana Wiesenberger

Março 2014

 

Imagem - Arnold Böcklin

Vejo-me Como Um Velho Escaravelho

Max Klinger

Vejo-me como um velho escaravelho
Consumido pela demência e pelo abandono
Que teima em continuar a empurrar
Uma bola imensa de excrementos
Que ainda sente útil, mas já não o será

Como se o dia fosse meta
E a noite margem

Como se algures estivesse sempre a alvorecer
E os olhos vendados por forças obscuras
Não lograssem atingir a claridade

Como se atrás de si só houvesse
Uma poeira indefinível
E diante de si
Um emaranhado impenetrável
Um labirinto de chamamentos falsos
Ecos dos pântanos onde almas confusas pereceram

E ele persegue no absurdo da caverna
Talvez saiba que são apenas sombras
Mas não há mais nada
É preciso fingir para acreditar

Ana Wiesenberger
15-12-2013

Imagem - Max Klinger

Quando Os Gritos Morrem Na Garganta

Samuel van Hoogstraten

 

Quando os gritos morrem na garganta
Sob o estrangulamento do que deve ser
Do que não pode ser

Quando as emoções são fumadas
Em cigarros de dor
Reduzidas a cinza nos cinzeiros
Ao cheiro baço que se infiltra
Em todos os cantos da casa

Quando os diálogos são iguais
Em todos os dias
Às mesmas horas
As palavras são meros semáforos
Para concretizar acções vazias
Por entre paredes derrotas
Na sua condição de lar

Quando sentes frio
E o barómetro marca uma temperatura
Amena

Quando as vozes na tua cabeça
São a agonia do silêncio em redor

Quando te desligas à noite
No abraço de um composto químico

Quando despertas sem vontade
E o café é lento a dar-te corda ao corpo

Quando encetas uma data
Com os gestos, já gastos na anterior
E nem sabes, porque o fazes

Então, existes
Mas não vives

Ana Wiesenberger
30-10-2013

 

Imagem - Samuel Van Hoogstraten

Na Minha Vida Deixei-me Abraçar

Imagem - Pedro César Teles

Na minha vida deixei-me abraçar
Por patas e páginas
Cães, Gatos
Livros, jornais, revistas
Cadernos meus em que mergulhei
Emoções
Em que tentei encadernar a minha solidão
Endémica

Houve sempre mãos a quererem-me tocar
E eu a querer ser tocada
Aprisionada na torre do meu ser
Sem me conseguir libertar
Sem me conseguir dar
A ninguém

Todavia, sinto com tanto fervor
O Colectivo; as vozes feitas de terra
Sangue e Dor
Os desprotegidos, os segregados
Pela amoralidade dos sistemas
Pela indiferença confortável
Dos que juraram viver bem
Num quadrado bem definido
De presunção e concepções estreitas
Fechadas à dinâmica do crescimento
Da elevação do percurso humano

Na minha vida, restam-me as palavras
Para chegar aos outros e a mim
E às vezes, quando o sol se põe
E a noite me enlaça numa exteriorização
Da minha amargura, da minha escuridão
Olho o céu através da cortina das minhas lágrimas
E procuro nas estrelas longínquas
Todas as vozes e os cheiros amigos
Que já se apartaram de mim

Ana Wiesenberger
20-08-2013

 

Imagem - Pedro César Teles





A Angústia é a Lepra

Imagem - Edvard Munch

 

A angústia é a lepra

Que alastra nos nós dos dias

Que transforma as minhas horas

Em borbotões de dor

Incapacidade de estar

Com os outros

Moinho de pás de coveiro

A aliciar-me para precipícios fatais

Nas areias movediças em que o meu querer

Agonia

Num Requiem silencioso

A gotejar sangue e lágrimas

Que ninguém vê

Nas súplicas dos meus olhos lassos

Vazios de horizonte

 

Ana Wiesenberger

26-07-2013


Imagem - Edvard Munch

Depressão

Imagem - Edvard Munch

 

Depressão

 

Manto triste

Que te abates sobre mim

A qualquer hora do dia

 

Leito frio de angústia

Onde repouso o meu corpo

Quando a noite cai

E eu cumpro o ritual da passagem

Sem vontade de me erguer

Na manhã seguinte

 

Amanhã

Será o mesmo

Tomarei os comprimidos

Fingirei que as coisas fazem sentido

Farei os gestos

Darei respostas

Farei, até perguntas

Esboçarei sorrisos

E à noite regressarei

Ao exílio de mim

Ao meu silêncio

Ao meu vácuo

 

Ana Wiesenberger

03-04-2005


Imagem - Edvard Munch

Nas Minhas Gavetas Desordenadas

Imagem tirada da internet sem identificação

 

Nas minhas gavetas desordenadas
Perdura um cheiro a mofo húmido
Dos sonhos guardados há muito
E as traças alimentam-se da poeira
Que era mágica
Alfazema da vontade esquecida
Alecrim das promessas quebradas
Madressilva das ternuras amarelecidas
Rosmaninho das tranças brilhantes
De outrora

No meu roupeiro imenso
Pululam lado a lado
Numa intimidade de memória
Os meus anos de abelha, de borboleta
De pássaro inquieto a picar
O que eu pensava ser o azul do céu
E os meus momentos felinos
Guiados pela febre de outros cheiros
Numa demanda ao luar dos encantos
Numa urgência de me eternizar
Noutros genes geradores de outros ciclos
Outras verdades, outras direcções

A porta aparentemente aberta do meu quarto
Esconde trancas indecifráveis
Códigos armadilhados
Pensamentos amotinados, cruéis
Desejosos de cercar, eliminar
O que não podem conter
Numa rejeição construída no tempo improvável
Duma meditação pagã

Por isso, o meu quarto
É toca, é antro, é covil
É mortalha cálida
Para as minhas horas
Inacabadas

Ana Wiesenberger
17-06-2013

 

Imagem tirada da internet não identificada.

 

 

 

Acordei Bastante Tarde

 

Acordei bastante tarde
Dormi muito; não bem, mas muito
Como se tivesse passado a noite
A procurar nas horas longas
O descanso para as minhas forças amarrotadas
Que não vinha

Agora, café
De facto, muito café
Na ilusão terna, de que a cafeína me desperte
E a cada célula devolva
A capacidade plena de vivenciar a realidade
Com os cinco sentidos
A tecerem um Sol miraculoso
Na escuridão da minha dúvida


Há uma tertúlia de poesia
Onde eu queria estar esta tarde
O meu espírito já foi para a estação
Com receio de não apanhar o comboio
E perder o início da sessão
Mas o corpo está inerte
Aconchegado em almofadas na cama
A abominar movimento
Num cansaço que enrola o tempo
Num novelo emaranhado
Cheio de nós complicados
A desafiarem a minha paciência

E então, que faço?
Mais café, mais ar, mais vozes
Que chegam a mim pela janela do meu quarto
Para me lembrar que há vida lá fora
E eu devo elevar-me inteirinha no balanço da brisa
E agarrar o dia
Com as mãos postas em oração

Ana Wiesenberger
28-04-2013

Porque Será que estou tão desatenta?

Porque será que estou tão desatenta
Apática, até, enquanto oiço e vejo
O Otelo Saraiva de Carvalho a falar
De um Abril de 1974 feliz

Talvez, tudo me pareça irreal, estranho
Uma fantasia, um sonho de patriota
Uma vontade explosiva
Um borrão de esperança na nossa história

Parece o Momentos de Glória
Misturado com E Tudo O Vento Levou
Com qualquer coisa de Os Últimos Dias de Anne Frank
Com Elogio da Loucura ao fundo

Talvez, eu já tenha entrado numa dimensão
De Lobo das Estepes em acordes intercalados
Com o Livro do Desassossego
Com banda sonora do Grito de Allen Gingsberg
Na voz de um Rutger Hauer desesperado
Em Blade Runner

Se calhar, só estou triste
E é possível que As Ondas que vêm
E vão da televisão à minha cabeça
Me levem ao pós-Animal Farm
1984 revisitado
Admirável Mundo Novo sem soma capaz de nos iludir
Num bem-estar de equilíbrio químico

Será que vamos permanecer serenos
Como perus em véspera de Natal
Cordeiros por alturas de uma Páscoa
Que parece não terminar

Ana Wiesenberger (in Portugal, Meu Amor)
24-04-2013

Imagem - Edward Munch



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