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querotrazerapoesiaparaarua

querotrazerapoesiaparaarua

A Ausência do Mar-pátria

A ausência do mar-pátria
Desata em mim miríades de delírios
Um estar por aqui e já não estar
Um quase querer abandonar a vida
Por não poder respirar

 

A alma confinada nesta saudade imensa
Sarcófago onde adoece a esperança
Corredor lúgubre e infinito
Que me faz acreditar não haver luz
Para banhar os meus sentidos

 

Erro os olhos à volta
E nada vejo que os prenda
Adoeço presa de ecos e visões absurdas
Como se por detrás das minhas pupilas
Vivessem postais ilustrados de cores berrantes
A imporem etiquetas a eito em paisagens
Como se uma cidade, um rio, um país
Fosse aquilo
E a minha capacidade de sonhar
Estivesse amortalhada pela lente do medo
De saber-se prisioneira de um tempo mudo
Sem contornos, sem prenúncio de beleza
Um arco-íris a acontecer numa gravura
De uma infância há muito vivida
Talvez, lamentavelmente nunca esquecida
Um desejo de retocar molduras do passado
Com o sangue do sacrifício de um presente
Sempre adiado, cada vez mais irreal
Como uma vida passada
Que se pensa ter vivido
Dimensão suspensa de uma Atlântida renovada
Em anéis enfeitiçados por um Deus louco
Por lágrimas humanas

 

Ana Wiesenberger (in Corredores)
29-08-2014

Imagem - Max klinger

 

 

Ontem à Noite Adormeci

Ontem à noite adormeci
Vencida pelo cansaço do dia
E traí a chuva de letras
Que jorrava em mim
Uma sede de papel por abarcar

 

Hoje, quando acordei
Perturbada pela culpa
Esquadrinhei os cantos da mente
Mas elas são caprichosas
E castigaram-me com silêncio

 

Não se escreve porque se gosta
Escreve-se porque só assim se é
No entanto, parece-me em rigor
Que o poeta não é senhor
Mas sim, servidor do verbo
Como se apenas tivesse sido escolhido
Mão humilde e atenta
Perante a exuberância dos ecos
Que em si moram

 

Ana Wiesenberger (in Corredores)
05-10-2014

Imagem - Remedios Varo

 

Ser Professor

Ser professor
É saber olhar e ver
Na paleta dos rostos na sala de aula
As cores a articular
Na construção da ponte para o diálogo
Entre o saber a transmitir
E a vontade individual de reter
Aprender a aprender
Suscitar o ensejo no outro
De descobrir um mundo novo
De factos, meios e modos de ver a realidade
De comunicar ideias e paisagens interiores
Ou não

 

Ser professor
É saber planear e calcular
Equações de espaço e tempo
Cansaço, desatenção e monotonia
E procurar vencer no quotidiano
A batalha das horas que não chegam
Dos recursos que escasseiam
Para ajudar a Ser
Jovens na encruzilhada das emoções
Na leveza do querer esvoaçante
Como uma bandeira ao vento
Num mastro suportado por pares e familiares
Que a idade há-de derrubar ou fortalecer
Para realizar a explosão do Eu

 

Ser professor
É saber olhar e ver
Nos semblantes alinhados diante de si
Os que mais precisam de respostas, de perguntas
Ou somente de uma mão sobre os ombros
De um sorriso de cumplicidade, de compreensão
Ou de ouvidos atentos num canto da escola


Ser professor
É saber olhar e ver
E combater no dia-a-dia a incerteza de ter sido justo
De ter dado corpo às estratégias adequadas
De ter estado vigilante
De ter agido em conformidade
De ter sido não só cérebro, mas coração
Para poder adormecer, conciliado
Pronto para a jornada do amanhã

 

Ana Wiesenberger
05-10-2014

Imagem - James Cowie

As Memórias Mais Doces Que Me Acompanham

 

As memórias mais doces que me acompanham
Têm bigodes hirtos e olhares profundos
Patas fofas desajeitadas ou leves como veludo

 

Com esses seres maravilhosos
Aprendi a proximidade
A partilha do tempo e das emoções
A suavidade da ternura natural
O calor da pertença
Que ergue o muro contra a solidão

 

Ao longo dos anos vivi despedidas dolorosas
Focinhos que segurei entre as minhas mãos
Molhados com a angústia das minhas lágrimas
Mas continuei a aventura do amor
Nos que se sucederam
Que fui encontrando pelo caminho

 

E hoje, sinto-me profundamente grata
Por a vida me ter dado a capacidade
De ser mãe, não apenas na minha espécie
Mas também de alguns filhotes de pêlo
Abandonados pelos humanos infames
Desprovidos da essência do amor
Imolados à compulsão do Ter
Em vez do Ser

 

O Dia Internacional do Animal
Não pode ser só a 4 de Outubro
Abramos as mentes dormentes
De cálculo e esterilidade
Façamos de novo o milagre da criação
Em cada dia
Em cada rosto
Um mundo novo de respeito e Amor

 

Ana Wiesenberger
04-10-2014

Imagem - Franz Marc

 

Não Consigo Entrever A Minha Vida

Pedro César Teles

Não consigo entrever a minha vida

Por entre os cortinados das horas

Quanto mais os abro, mais se cerram

Diante dos meus olhos incrédulos

Traição massiva do que sempre fui

Do que sempre quis

 

A penumbra instala-se intrusiva

Como se já não houvesse sol

Ou as nuvens vingadoras

O tivessem aprisionado

 

Das portas, nem sombras

Uma ilusão de chaves por alcançar

Num deserto de exaustão e desesperança

 

Todavia, permanece em mim a convicção

De que o gelo não mata

Apenas adormece a paisagem

Para lhe conter a beleza

Para fundir em si a ponte

Aparentemente intransponível

Entre o princípio e o fim

 

Ana Wiesenberger (in Corredores)

30-09-2014

Imagem - Pedro César Teles

Obrigada, Sol

Joseph Mallord Turner
Obrigada, Sol
Porque me aqueces
E dissolves com amor
O frio que me inunda a alma

Obrigada, Vento
Porque me sacodes
E me libertas do entorpecimento
Com que a depressão me ameaça

Obrigada, Chuva
Porque me despertas
Quando sulco as ruas
Ausente de rumo e sentidos

Obrigada, Neve
Que me envolves em beleza
E espalhas a magia em redor
Por que os meus olhos anseiam

Se eu fosse tempo
Seria nevoeiro, glaciar
Ou tempestade
Mas como sou mulher
Solto o meu temperamento cíclico
Em lágrimas, gritos e fúrias infernais
Nos dias em que não consigo
Ser apenas sorriso

Ana Wiesenberger
17-09-2014

Imagem - Joseph Mallord Turner

Há Alturas Em Que Temos de Parar de Ser

Joseph-Désiré Court
Há alturas em que temos de parar de ser
Para sentir
Arrumar o corpo num sítio, aquietá-lo
Imobilizá-lo e permitir que o olfacto
E a visão suturem o vazio instalado

Suspender a inquietude da afirmação do ego
Atar a leveza da borboleta a uma pedra
E esperar pela profundidade do musgo
Dos nossos pensamentos mais íntimos
Sempre ocultos nos passos desaustinados
De um quotidiano febril em que se faz
O que tem de ser feito
Em que se olvida o querer
A voz subterrânea cada dia mais amordaçada
Sufocada pela realidade invasiva
A anular o que há de singular em nós

De tantas pontes construirmos
Para chegarmos aos outros
Esquecemo-nos da necessidade de olharmos
Para dentro e lermos a nossa verdade
Que pode não ser admirável, qual obra de arte
Mas é a nossa raiz, a nossa marca
Que nos distingue dos outros
A nossa respiração

Ana Wiesenberger
27-08-2014

Imagem - Joseph-Désiré Court

Setembro

Gustav Klimt
Setembro dos ocres misteriosos
A surpreenderem-nos pelos caminhos
Por entre o calor do sol
E o sal do mar que apetece
Agora mais do que nunca
Porque sentimos a ânsia de prender o Verão
Não permitir que ele parta
E leve consigo as horas despreocupadas
Que vivemos
Os risos das crianças, os olhares cúmplices
Dos apaixonados libertos do jugo do trabalho
Para amar

Setembro das minhas memórias doces
De juventude
Mãos enlaçadas em passeios inocentes ao pôr-do-sol
A desenovelar sonhos por cumprir
Destinos difusos ainda
A ganhar contornos nas nossas vozes de esperança
Nas nossas expectativas articuladas
Na promessa que os adultos diziam ver em nós
Ou não

Setembro do amor, da paixão natural
Que tivemos de encerrar numa caixa de areia
Por sermos néscios e acreditarmos
Que os outros tinham razão
Não era para cumprir
E afinal, a vida reencontrou-nos em amizade
De cicatrizes guardadas e esquecidas
E eu penso nas horas pardas da minha meia-idade
Que até estive com o Príncipe Encantado
Mas não fui capaz de vestir a minha rebeldia de egoísmo
E fiz-lhe ver, que eu não era a sua destinada Princesa

Na despedida trocámos prendas
Tirei o meu colar de contas violeta do pescoço
Ele despiu a camisola verde como a copa das árvores
Que ambos sabíamos respirar
Abraçámo-nos com olhos vítreos de dor
E voz quebrada
Em mim sempre o imperativo do verbo a ceifar o meu querer
O meu desejo
É melhor assim!

Ana Wiesenberger (02-09-2014)
Imagem - Gustav Klimt

O Vazio Prolonga As Horas

Arthur Rackham
O vazio prolonga as horas
Estica os minutos em não-ser
Não-estar, não-ver, não-sentir

Se ao menos, ao acender uma vela
Comunicasse a vontade de luz
Orientação numa escuridão medonha
Que me atormenta
Incompreensível para um ser da noite

O que paira sobre mim é a dor
Os dentes aguçados do que não quero
Assumir ou compreender

Sempre quis inventar caminhos
Sempre fiz trilhos, vias abertas
E agora pareço um morcego embriagado
De estranheza
A embater nas esquinas dos muros
Esquecido de um radar ancestral
Que lhe daria a paz dos percursos
Conhecidos, apetecidos

Amanhã permanecerá ainda
O grito contido, estrangulado
Desabituado de habitar a garganta

Ana Wiesenberger
19-08-2014

Imagem - Arthur Rackham

No Bosque Onde As Árvores Altas

By Mukul Soman (National Geographic)
No bosque onde as árvores altas
Me fazem esquecer os muros da cidade
Diluo o meu medo dos dias
E encho o peito de cheiros melodiosos
Feitos de resina e verde de vida

Detenho os olhos na imensidão de pinhas
Espalhadas pelo solo - tão pequeninas
E sinto a saudade das irmãs delas
Que, agora, me parecem enormes
Expoentes do sul da Europa
Marcas do país que trago comigo

A dor explode, mas não permanece
Um bailado de borboletas enleva-me
Em oração - um sentimento de gratidão
Profunda
Pelo ar que respiro
Pela centelha de energia que habita em mim
Pela beleza da natureza que me envolve
Pelo mistério do tempo que as horas encerram
E tal como as marés
Levam e trazem significados
Que só as mentes abertas
Conseguem descodificar - sentir

E depois, já mais leve
Dirijo os meus passos para casa
A entreter no coração desejos de liberdade
Fecho os olhos por um minuto
E já não sou mulher
O lobo que me sustém afasta-se, gracioso
E une-se à paisagem

Ana Wiesenberger
09-08-2014

Imagem - Mukul Soman (National Geographic)

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