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querotrazerapoesiaparaarua

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A Ausência do Mar-pátria

A ausência do mar-pátria
Desata em mim miríades de delírios
Um estar por aqui e já não estar
Um quase querer abandonar a vida
Por não poder respirar

 

A alma confinada nesta saudade imensa
Sarcófago onde adoece a esperança
Corredor lúgubre e infinito
Que me faz acreditar não haver luz
Para banhar os meus sentidos

 

Erro os olhos à volta
E nada vejo que os prenda
Adoeço presa de ecos e visões absurdas
Como se por detrás das minhas pupilas
Vivessem postais ilustrados de cores berrantes
A imporem etiquetas a eito em paisagens
Como se uma cidade, um rio, um país
Fosse aquilo
E a minha capacidade de sonhar
Estivesse amortalhada pela lente do medo
De saber-se prisioneira de um tempo mudo
Sem contornos, sem prenúncio de beleza
Um arco-íris a acontecer numa gravura
De uma infância há muito vivida
Talvez, lamentavelmente nunca esquecida
Um desejo de retocar molduras do passado
Com o sangue do sacrifício de um presente
Sempre adiado, cada vez mais irreal
Como uma vida passada
Que se pensa ter vivido
Dimensão suspensa de uma Atlântida renovada
Em anéis enfeitiçados por um Deus louco
Por lágrimas humanas

 

Ana Wiesenberger (in Corredores)
29-08-2014

Imagem - Max klinger

 

 

O Vazio Prolonga As Horas

Arthur Rackham
O vazio prolonga as horas
Estica os minutos em não-ser
Não-estar, não-ver, não-sentir

Se ao menos, ao acender uma vela
Comunicasse a vontade de luz
Orientação numa escuridão medonha
Que me atormenta
Incompreensível para um ser da noite

O que paira sobre mim é a dor
Os dentes aguçados do que não quero
Assumir ou compreender

Sempre quis inventar caminhos
Sempre fiz trilhos, vias abertas
E agora pareço um morcego embriagado
De estranheza
A embater nas esquinas dos muros
Esquecido de um radar ancestral
Que lhe daria a paz dos percursos
Conhecidos, apetecidos

Amanhã permanecerá ainda
O grito contido, estrangulado
Desabituado de habitar a garganta

Ana Wiesenberger
19-08-2014

Imagem - Arthur Rackham

O Pássaro

Jacek Yerka
O pássaro
A quem se jura amar
Por lhe proporcionar uma gaiola imensa
Também testa com a dor das suas asas cortadas
Os limites da sua pretensa liberdade

Canta. Não canta
Come. Não come
Inquieta-se como se o gato
Que não vê, já o tivesse devorado
Como se habitasse o interior desse gato medonho
Que o engoliu inteiro
E não lhe deu o tempo necessário
Para perceber que estava morto

O pássaro
Muda de poleiro
Para cima, para baixo
Pára. Escuta o silêncio
Será silêncio ou um rumorejar de algo
Que não conhece
Talvez as batidas apressadas do seu coração
Que afinal não morreu
Que afinal ainda amanhece transparências húmidas
Nas árvores que nunca viu
Nem sentiu
Ou serão remoinhos de sonhos emprestados
Que alguém depositou na sua gaiola amortalhada
E esquecida
Como uma folha de Outono
Abandonada num trilho distante
Do parque ameno
Onde as famílias fazem que conversam
E julgam que são felizes

Ana Wiesenberger
26-05-2014

Imagem - Jacek Yerka

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