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querotrazerapoesiaparaarua

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De dia mantenho-me apolínea

Vladimir Kush - Adult Games

De dia mantenho-me apolínea
De noite o vazio convida Dionísio
E a dor derruba toda a construção

 

E neste baile enamorado
De vida e morte
Ordem e desordem
Passam semanas, meses e anos

 

Só os sulcos no meu rosto
Cada vez mais ausente
Denunciam a tragédia real
Que coabita diariamente
Com a minha sede de harmonia
Com o meu desejo de amar a força dos dias

 

E deste contínuo cair e erguer-me
Desta luta em que venço e sou vencida
Fica-me o estremecimento matinal
De medo e cansaço decorrente da consciência
De ter de cumprir mais uma jornada
Que mesmo sendo diferente, será igual

 

Adormecerei mais tarde como ontem
Como sempre
Pálida de angústia e frustração
Só e enclausurada neste moinho que me destrói
E me leva em cada volta para mais longe de mim

 

Ana Wiesenberger
24-07-2015

 

Imagem – Vladimir Kush

 

 

A Páscoa

sick-dog-public-domain

A Páscoa era o almoço num restaurante rústico
Com parque para a pequenada
E jogo da malha para o meu pai e os outros
As mulheres conversavam engomadas em vestidos novos
E cabelos emproados enquanto descansavam os pés castigados
Pelos sapatos ainda muito apertados nos banquinhos de madeira
E lá iam vigiando as crianças por entre as rendas e as novidades
Da semana

 

A Páscoa era a visita obrigatória aos afilhados
As amêndoas e as prendas, os pratos atafulhados
Folares, ninhos e fios de ovo a condizer com a promessa
De renovação da vida

 

E depois, veio a Páscoa em que o borrego se transformou
Em raiva e sangue dentro de mim
Quando, ao regressar a casa, te encontrei inerte e fria
E os restos guardados para ti com amor
Se tornaram lixo e desperdício

 

Quando te enterrei
Sei bem, que uma grande parte de mim
Foi a enterrar
Contigo

 

As décadas sucederam-se
Mas desde então
A Páscoa só me sabe a morte
Não chega a assumir qualquer ressurreição
Na minha mente não há ovos coloridos
Que consigam tapar a imagem de um dos seres
Que mais amei
Só, hirta e fria

 

Ana Wiesenberger
03-04-2015

Imagem – Domínio público (internet)

O Dia Começa Em Bruma

Edmund Dulac - The buried Moon

O dia começa em bruma
Resquícios de uma Alcácer-Quibir
Sempre presentes
Sempre por resolver
A cortar, dilacerantes
A pretensa paz por edificar em mim
Horas possíveis de construção de sentido

 

As vozes do passado são muitas
E os seus gritos sobrepõem-se ao presente
Tornam-me impossível conciliar
Os caminhos seguidos, ditados pela razão megera
Que me algemou ao sofrimento constante
Feridas abertas e purulentas dos sonhos sacrificados
Eternamente cativos na cave da minha vida
E só libertados em memória dolorosa
Quando a tempestade me trespassa
E me dá ganas de assassinar o real
Por ser uma mentira torpe

 

O dia começa com um travo estranho, bolorento
Que me causa náusea e me exila da vontade do suster
Substância que o corpo sossegou numa agonia bafienta
A amordaçar o espírito no Não-Ser
E o único rumo, que ainda me resta
É Ser através da tinta no papel amigo
Aranha triste a um canto do tempo incerto
A aguardar a morte na sua teia breve

 

Ana Wiesenberger
14-11-2014

Imagem - Edmund Dulac

 

A Ausência do Mar-pátria

A ausência do mar-pátria
Desata em mim miríades de delírios
Um estar por aqui e já não estar
Um quase querer abandonar a vida
Por não poder respirar

 

A alma confinada nesta saudade imensa
Sarcófago onde adoece a esperança
Corredor lúgubre e infinito
Que me faz acreditar não haver luz
Para banhar os meus sentidos

 

Erro os olhos à volta
E nada vejo que os prenda
Adoeço presa de ecos e visões absurdas
Como se por detrás das minhas pupilas
Vivessem postais ilustrados de cores berrantes
A imporem etiquetas a eito em paisagens
Como se uma cidade, um rio, um país
Fosse aquilo
E a minha capacidade de sonhar
Estivesse amortalhada pela lente do medo
De saber-se prisioneira de um tempo mudo
Sem contornos, sem prenúncio de beleza
Um arco-íris a acontecer numa gravura
De uma infância há muito vivida
Talvez, lamentavelmente nunca esquecida
Um desejo de retocar molduras do passado
Com o sangue do sacrifício de um presente
Sempre adiado, cada vez mais irreal
Como uma vida passada
Que se pensa ter vivido
Dimensão suspensa de uma Atlântida renovada
Em anéis enfeitiçados por um Deus louco
Por lágrimas humanas

 

Ana Wiesenberger (in Corredores)
29-08-2014

Imagem - Max klinger

 

 

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