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querotrazerapoesiaparaarua

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Quando Passavas na Avenida

 Quando passavas na avenida
Com o teu passo elástico
Eu seguia a energia do teu corpo
Com a gula de um gato
A mirar um pires de leite
A deslocar-se para longe
Dos seus bigodes ávidos

Entretive-te no meu olhar
Passeei-te pelas minhas palavras
Senti o esforço dos teus músculos tensos
A dominar o arco das tuas expressões
Do teu ser inquieto, altivo e distante

Adivinhava-te no fogo dos olhos
O calor da tua libido cintilante
Estremecia colada à brusquidão
Dos teus movimentos naturais
Que em mim suscitavam desejos
Que eu não queria assumir

Apetecia-me entrar nos teus sonhos
Sentir cada centímetro da tua pele
Sob os meus lábios
Abocanhar-te a nuca quente
Misturar-me contigo
Numa dimensão alucinada
Ser seiva e raiz
Uivo e rugido
Num bosque de outra era

E contudo, só as nossas mãos se tocaram
Ao de leve, num momento breve, desajeitado
Na troca de um livro
De que ambos gostávamos
E toda a paixão
A real e a imaginária
Esvaiu-se por entre Os Vagabundos de Gorki
Adormeceu no colo de Teresa Raquin


Ana Wiesenberger
(in Erotismus, Impulsos E Apelos)

Poema dito no programa "Amantes da Poesia" de Maria Isabel Rodrigues, na Popularfm

Nunca Gravei As Minhas Iniciais

Vincent Van Gogh - Mulberry Tree

Nunca gravei as minhas iniciais
Com as de outrem
Num coração tosco
Num tronco de árvore do jardim

 

Nunca o fiz também
Nas carteiras de madeira da escola
Daquele tempo
Talvez nunca sentisse vontade
De associar o meu nome a outro nome
Como se soubesse de antemão
Que tal nunca faria sentido

 

Vivi, antes, como uma árvore
Que cresce em ramos
Ao Longo das sucessivas Primaveras
Que em si a força encerra

 

Expandi-me num processo de integração consentida
Sem perder a identidade
Acrescentei, apenas, à minha existência os eleitos
Um filho, um marido, vários seres lindos de quatro patas
Em que consigo ver o meu rosto oculto

 

E assim, perturba-me, por vezes
A facilidade com que as pessoas se colam umas às outras
Nu ma fúria desmesurada de criar sentido na ausência dele
Da construção de um espanta-espíritos débil
Para fazer face à morte – ao fim

 


Ana Wiesenberger
28-03-2015

Imagem – Vincent Van Gogh

Electrão

Jeremy Malvey

Electrão
Protão
Neutrão
Campos magnéticos perdidos na memória
Guardados no tempo das batas brancas
E do cheiro químico do laboratório
Que nos transmudava os ânimos em festa

 

Os convívios de sábado à tarde na cantina do liceu
E as primeiras meias de senhora; nylon, cor de pérola
A arranharem-me as pernas desajeitadas
Sob a saia de xadrez que me roubava o à vontade

 

Esse foi o tempo maracujá do exótico da descoberta
De que os opostos se atraem e os iguais se repelem
Embora isso só nos transtorne a vida e o estar

 

Mais tarde, a época dos espelhos, das luzes
E dos cromados das viaturas de duas e quatro rodas
Em que partíamos numa realização de som e de fúria
Que para tantos terminou em cinza

 

E agora, no tempo ameno dos lilases
Balança-se tudo na arca das recordações
E o início da jornada, o cheiro de baunilha do jardim-escola
Entranhado nas minhas narinas de menina
Já não me parece tão inócuo
Porque, afinal, delineou o meu caminho até ti
Talvez porque o cansaço de ser vermelho e preto
Me levasse a procurar o rosa que abarcava todos os nossos caprichos
E birras
Sem nunca deixar de ser um regaço de ternura, um reduto de apaziguamento
A caverna apetecida onde os nossos olhos viviam as aventuras coloridas
Que passavam no ecrã gigante da alvura da parede na nossa sala de cinema

 

Ana Wiesenberger
11-02-2015

Imagem - Jeremy Malvey

Não sei, se foi o verbo nos teus lábios

Head-of-a-woman-seen-from-behind - François Boucher

Não sei, se foi o verbo nos teus lábios
Que me prendeu o olhar, a atenção
Ao teu porte carregado de ironia
E distanciamento crítico pelas coisas

 

À frente do anfiteatro
Antes e depois dos seminários
Falávamos muito e a tua proximidade
Apetecia-me de um modo diferente
Difícil de catalogar

 

Talvez, não fosse bem isso
Talvez eu me recusasse a fazê-lo
Por recear, perder a dimensão
Do que é sensato, normativo
Ideal

 

No entanto, quando a idade avança
E a memória dobra em nós
A multiplicidade de momentos vividos
Permitimo-nos, por vezes
Vaguear para longe dos nossos pressupostos
E resta-nos admitir a estranheza de tantos Eus
Que fomos e deixámos pelos caminhos
Unhas dolorosas que cortámos e voltaram sempre
A crescer
Na penumbra dos nossos esconsos
Nos armários dos nossos quartos
Que invadem a nossa vigília
Quando apagamos a luz para descansar

 

Ana Wiesenberger
2013

Imagem - François Boucher

 

Setembro

Gustav Klimt
Setembro dos ocres misteriosos
A surpreenderem-nos pelos caminhos
Por entre o calor do sol
E o sal do mar que apetece
Agora mais do que nunca
Porque sentimos a ânsia de prender o Verão
Não permitir que ele parta
E leve consigo as horas despreocupadas
Que vivemos
Os risos das crianças, os olhares cúmplices
Dos apaixonados libertos do jugo do trabalho
Para amar

Setembro das minhas memórias doces
De juventude
Mãos enlaçadas em passeios inocentes ao pôr-do-sol
A desenovelar sonhos por cumprir
Destinos difusos ainda
A ganhar contornos nas nossas vozes de esperança
Nas nossas expectativas articuladas
Na promessa que os adultos diziam ver em nós
Ou não

Setembro do amor, da paixão natural
Que tivemos de encerrar numa caixa de areia
Por sermos néscios e acreditarmos
Que os outros tinham razão
Não era para cumprir
E afinal, a vida reencontrou-nos em amizade
De cicatrizes guardadas e esquecidas
E eu penso nas horas pardas da minha meia-idade
Que até estive com o Príncipe Encantado
Mas não fui capaz de vestir a minha rebeldia de egoísmo
E fiz-lhe ver, que eu não era a sua destinada Princesa

Na despedida trocámos prendas
Tirei o meu colar de contas violeta do pescoço
Ele despiu a camisola verde como a copa das árvores
Que ambos sabíamos respirar
Abraçámo-nos com olhos vítreos de dor
E voz quebrada
Em mim sempre o imperativo do verbo a ceifar o meu querer
O meu desejo
É melhor assim!

Ana Wiesenberger (02-09-2014)
Imagem - Gustav Klimt

Vizinhas

René Magritte
Vizinhas

Há dias em que se ouvem gritos
E portas a bater na casa da esquina
Há dias em que se ouvem gritos
E portas a bater na casa ao lado

Cada uma delas respeita a vez
E não se põe à janela ou no jardim
Para escutar melhor a ira da outra

Em vez disso, compreendem-se
Em períodos de tréguas mútuas
Quando se vêem, acenam-se
Com sorrisos cúmplices
Do alto dos seus casamentos
Sólidos, pequeno-burgueses
E sabem que um dia
Os netos de uma e outra
Saltitarão felizes nos relvados anexos
E os avôs partilharão segredos de sucesso
Para o churrasco de Verão
Num convívio de amigos

Ana Wiesenberger
29-07-2014

Imagem- René Magritte

Ela Disse, Que Ele Disse

Magritte
Ela disse, que ele disse
Que a amava
Que dela cuidava
Carinho, flores
Olhos nos olhos
Braços noutros braços
Entrelaçados
Nós de emoção
Ou apenas paixão

Ele disse, que ela disse
Que nele não confiava
Que ele lhe mentia
Que era o que não era
E também o que parecia
Querer ser

Ela exigiu palavras, desculpas
Verdades absolutas
De que aparentemente carecia
Pontas soltas dos laços do absurdo
Que ao longo do dia se desenrolavam
Por entre os demais

Ele disse, que ela perdera o fio débil
Da racionalidade ainda sustentada
Por dentro da unidade psiquiátrica
Que ambos cingia

Ela disse, que ele alucinava e vacilava
Entre esgares de desprezo
E SMS com promessas de amor íntegro

E os outros passaram a segui-los com o olhar
Num entusiasmo de quem finalmente
É parte de um elenco
Num enredo propício a muitos episódios
Com a satisfação de quem descobre
Uma série de sucesso
Um carrossel interminável de altos e baixos
Como as vidas cheias do ecrã
Capazes de os fazer olvidar
O cinzento pardacento dos próprios dias

Ana Wiesenberger

Intimidades

Marc Chagall

Intimidades

 

Eu quero que tu queiras

O que eu quero

Tu queres que eu saiba

O que tu queres

E aborrece-te que eu te queira levar

Onde eu quero sem tu quereres

 

Eu sei que tu não sabes, não conheces

Tudo o que podes querer

Por isso, agarro na tua mão

E levo-te para diante do que tu queres

Onde eu sei, que tu também podes querer ir

Sem saberes, que queres ir

 

Mas por vezes, inquietas-te e sacodes a minha mão

Porque não queres sair do dentro de ti que conheces

Para ir à procura do que ainda não sabes

Que também queres, ou podes vir a querer

Se te atreveres a ir mais além

 

E eu fico triste e contrariada, quando tu não queres

Por não ter companhia na caminhada

E por saber de cor o fio dos dias

E o da minha vontade férrea

Que voltará a puxar-te, a empurrar-te para te levar

A muitos outros quereres

Numa encarnação singular e absurda de Sísifo

 

Ana Wiesenberger

08-05-2014

 

Imagem- Marc Chagall

Os Espasmos da Madeira

Imagem - Donna Norine Schuster

 

Os espasmos da madeira

Na casa velha

Trazem à minha mente

Sorrisos sorrateiros de prazer

 

Do tempo em que o meu corpo

Era uma fogueira

Sob o teu vento de me possuir

Em vendaval

 

As horas passavam por nós

Como pinhas doces

Consumidas no nosso lume

De pernas, braços e bocas

Por descobrir

Na vertigem febril de nos fundirmos

Num ídolo pagão

Das eras que não conhecemos

 

A nossa alegria breve de primeiro cio

Abria-nos leitos em todos os espaços

Em todos os cantos

Em que nos podíamos roubar

À presença dos outros

 

Ainda sinto a água escura

A abençoar a nossa juventude

A areia fria a arranhar-me a pele

O riso feliz de não encontrarmos

As roupas

 

Mergulhámos um no outro

Desde o dia

Em que nos definimos

Como homem e mulher

Às apalpadelas um no outro

Em busca dos ecos de prazer

Mãos aprendizas na arte de tocar

Fazer eclodir arrepios de êxtase

 

Depois, com a destreza amadurecida

Na confiança de um mapa partilhado

Sem fronteiras e limites de conveniência

Rendidos à beleza dionisíaca da paixão

 

Hoje, já decerto, que nenhum de nós

Consegue estremecer como outrora

Mas, talvez, qualquer coisa banal

Também lhe leve a memória bela

E quase envergonhada

Do tempo em que éramos jovens

E sabíamos amar

 

Ana Wiesenberger (in Erotismus, Impulsos e Apelos)


Imagem- Donna Norine Schuster

 

 

 

Deito-me Na Cama Vazia

Imagem - Lauri Blank

 

Deito-me na cama vazia

E entrego-me ao silêncio

Não há ecos

Não há sombras

Não há braços, nem pernas

À espera de mim

 

O meu corpo molda-se aos lençóis

E enrola-se no sonho

Na maresia do desejo de te ter

De te encontrar

Aqui na penumbra do meu quarto

No sossego das minhas vozes

Na tempestade do meu ser

Sedento de ti

 

Abro os sentidos em mim

Devagarinho, como quem abre

Uma porta antiga, selada de tempo

E deixo-te entrar

Sorrateiro e imponente

Na tua dimensão emprestada

À minha fantasia

 

Sinto o teu peso sobre mim

A deslizar num movimento febril

E o teu rosto indistinto de sépia

Numa moldura de outro século

Liberta-me em espasmos doloridos

Resgata-me da minha solidão

Para me levar contigo

 

O Amor franqueia todas as cancelas

A eternidade é o momento

 

Ana Wiesenberger in Erotismus – Impulsos e Apelos


Imagem - Lauri Blank

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