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querotrazerapoesiaparaarua

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Andam Figuras Altivas, Desconhecidas

Andam figuras altivas, desconhecidas
A passear dentro de mim

 

Os sentidos embotados fazem-me crer
Que não sei, para onde ir
Ou o que fazer

 

Tacteio possibilidades no escuro da minha mente
Mas não vislumbro nada além dos pirilampos psicadélicos
Dos rostos que perdi

 

As árvores oscilam e dobram-se sobre mim
Numa carícia de orvalho fraco de Verão

 

Queria ler
Não consigo
Tenho um caldeirão cheio de palavras
A fervilhar no meu sangue

 

A tarde vem e não vem
E eu quero ir com ela
Para junto do mar

 

Porque receio ir, então?
Se anseio por mergulhar na água fria
E de facto, só é Outono no calendário

 

É talvez a vontade envergonhada de seguir
Pela estrada azul, esverdeada
Sempre a direito
Até ao meu castelo ditoso
De menina do mar

 

Ana Wiesenberger
29-09-2009

Imagem – Edmund Dulac

 

A Chuva Copiosa Bate Na Minha Janela

Oskar Kokoschka
A chuva copiosa bate na minha janela
E desata deste lado da vidraça
Uma explosão de desejos
Surgem piqueniques de livros
Saltam as tampas das caixas dos bombons
O radio assalta-me com um trecho da Flauta Mágica
E a gravura a lápis de cor de Kokoschka
Liberta os cantores imprevistos na minha sala

Foi-se a vontade de trabalhar
Subiu no ar uma fragrância hilariante
Que anima em mim resquícios de Alice à hora do chá
Na deliciosa companhia do Coelho e do Chapeleiro Louco

E depois ela pára subitamente
Sai da minha cabeça para ficar só lá fora e ser chuva trivial
E eu volto à quietude do meu espaço com olhos de Dorothy
De regresso ao Kansas
A tentar convencer-me que a magia está dentro de nós
E podemos sempre procurar o caminho para Oz
Quando sentirmos a pequenez sufocante do nosso quintal
Vedar a nossa alegria de sermos pássaros coloridos

Ana Wiesenberger
27-05-2014

Imagem - Oskar Kokoschka

Estou Cansada de Memórias

Arthur Hughes

 

Estou cansada de memórias
De salas de espera arrumadas em cubos
Como aquários de grilos sibilantes

Já mandei calar o Watson e o Sherlock Holmes
Disse ao Eça que fosse govarinhar para longe
E ao Brecht que fizesse uma revolução

Eu estou fatigada de ecos dentro e em redor de mim
Já não encontro chaves à espera que eu lhes pegue
Já não distingo a Fada Boa da Má
E desisti de ir até Oz

Vou desintegrar-me em palavras vãs e audiências
A condizer
E fingir-me leda, completa, toda adaptada ao vazio
Das vozes que me estreitam pretensamente perto
E cada vez mais longe de mim

Vou exilar-me nas montanhas do sono e do sonho
Onde a beleza ainda acontece e eu não tenho frio
Nem fome de ser e estar
Onde os seres pequeninos são mestres e sábios
E sabem ouvir e ensinar
Onde não há espaço para mentiras ou inverdades
Onde a transparência das almas se entrelaça
Numa harmonia expansiva de um arco-íris sem par
E ninguém precisa de se justificar
Para existir

Ana Wiesenberger
03-04-2014

Imagem - Arthur Hughes

Creio Em Fadas E Dragões

Imagem - Florence Harrison

 

Creio em fadas e dragões
Em árvores que escutam
E pedras que falam

Ilumino a trivialidade dos dias
Com sorrisos do gato brincalhão
Do país da Alice
E converso com o espantalho
Ao final das tardes de verão

Coitado, ele, por vezes, está cansado
Pesa-lhe Oz nas horas de dúvida
A fiar hipóteses de perigos vários
A bruxa do Norte e as congéneres de Macbeth
Trazendo morte e sangue aos desavindos
Fogo letal ao seu corpo de feno
Angústia de separação a povoar a saudade
De Dorothy
Naufrágios compulsivos sob a égide
De Moby Dicks sedutoras
Chaves perdidas para portas de sol urgentes

Creio em fadas e dragões
Seres pequeninos que habitam os interstícios
Dos nossos horizontes cerrados
Vozes sábias de Deuses olvidados
Castelos abertos de pontes suspensas para o mar
Sereias traquinas a entreterem redes de peripécias
Cavaleiros-sem-Cabeça a percorrerem eras a fio
Numa demanda de coragem
Vítima da servidão do amor
 
E por isso, nunca me aborreço
De estar aqui ou ali
Porque estou sempre aqui e também ali
Deste e do outro lado do espelho

Rio-me com o Peter Pan
Deixo-me encantar pelos amuos da Tinkerbell
E escondo-me dos beliscões ásperos dos Muggles
Na teia de Carlota
Lá na torre inacessível da bela Rapunzel

Ana Wiesenberger
10-07-2013

 

Imagem - Florence Harrison

Threads of Dust Mingle

Alice in the wonderland (imagem tirada da internet sem identificação))

 

 

Threads of dust mingle

In the memories of my paths

Through heaven and hell I crawled distances

Till I landed in your dreams

But dreams are doomed to vanish in the air

When we open our eyes

 

Daily life demands our struggle to be real

And dooms us, sometimes, to forget our longings

And our vision of the world

 

Let us dare to embrace our condition

And put an end to the loneliness in our hearts

Light a candle to fantasy and visit fairyland for short

 

No need to become a fool on the hill

No need to be one flying over a cuckoos-nest 

Just embody the freedom of your Self and

Rest in your silence

 

Then, perhaps new stars will be born in your eyes

And old fears will cease to exist

 

Ana Wiesenberger

 

 

 

Hoje Gostava de Me Pôr Em Bicos de Pés

Hoje gostava de me pôr em bicos de pés
Em pontas, talvez
E pintar no cinzento do céu
Nuvens cor-de-rosa com sorrisos amarelos
E olhos azul-bebé

Depois, ia buscar o resto dos lápis de cor
E desenhava com cuidado
Um arco-íris sobre o mundo
Talvez, assim, as pessoas acordassem
Para a beleza, para a paz
Talvez, assim, eu conseguisse fazer alguém
Feliz
Mesmo, se fosse só um minuto
Um segundo fugaz, como um gato tímido

Em seguida, se ainda tivesse tempo e energia
Envolvia o cotão de neve em bolas de sabão
E cristalizava-as no ar
Para que nunca rebentassem e fugissem de nós
Com a nossa infância e os nossos sonhos

E decerto, que nesta paisagem maravilhosa
Haveria ruas e avenidas repletas de gente sorridente
A passear os seus cãezinhos e gatinhos
De que só se separariam
Quando a morte lhes cortasse o elo

Nos parques e nas escolas
As crianças viveriam as horas com deleite
E de mãos dadas com o amor bem definido
Entre as tarefas de crescer e brincar
De aprender e de ser

E à noite, não haveria ninguém abandonado
Numa praça, num banco de jardim, num canto
Ao frio, à fome e à sede
Votado ao desespero
De não ter amanhã

Neste cenário, ricos seriam só aqueles
Que mais podiam partilhar
Sem ofender na dádiva
Sem engodo oculto
Num abraço forte e pleno
Fraternidade

Ana Wiesenberger
08-02-2013

Imagem - (efeitos especiais registados no livro encontrado de Herman Schultheis)

efeitos especiais - Herman Schultheis

Androgynos

Androgynos - fonte desconhecida

Esculpi-te na minha névoa
Palmo a palmo
Senti os teus ombros
Nascerem das minhas mãos

Trabalhei, depois
A densidade muscular do teu peito
A linha seca dos quadris
As nádegas perfeitas
As pernas fortes como colunas
Os pés largos e atléticos

Fiz, então uma pausa
Para contemplar a obra em curso
E senti-me vã e trivial
Um corpo de Amor não tem rosto
E não sei, se terá sexo
Alma terá com certeza

E então, comecei de novo
De um bloco de pedra alva
Surgiu um vulto andrógino
Magnífico
Não era um homem
Não era uma mulher
Era um ser indistinto
E contudo, tão distinto nas suas feições
Propensas à ternura, à compreensão
À companhia

Os olhos eram límpidos
Sem medo de ver
Os ouvidos bem delineados
Sabiam escutar
E a boca suave
Preparada para deixar fluir
Palavras que são ideias e elos
Isenta de cinismo

Os braços eram sólidos
De uma solidez capaz de erguer
Alguém do chão
Mas nunca de derrubar


O tronco cinzelado com cuidado
Poderia ser seio de alimento
De um lado
Do outro, uma lisura maciça
A prometer abraços, conforto
E unidade

As pernas eram ágeis
Para correr livre como as gazelas
Os pés proporcionados
Para sustentarem longas horas de pé
Em assembleias de cidadãos
Concretizações de uma democracia nobre

E o sexo, não era sexo no singular
Para ser feminino e masculino
Num só ser
De mãos dadas
Vocacionado para amar

Ana Wiesenberger
12-02-2013

Fico Ébria De Tanto Querer Sonhar

Fico ébria de tanto querer sonhar
Pesam-me os dias cinzentos
E a inquietude enlouquece-me
Ahab rendido a uma Moby Dick
Sempre longínqua

Desfio planos de evasão impossíveis
Que não me convencem a acarinhá-los
Pequenos nichos de encontros
De corpos emaranhados
Numa Voz Subterrânea
Que alcançou a luz real

E fico triste e envergonhada
Por não conseguir tocar o mosto
A madureza de uma maçã por saborear
Votada à eternidade do meu medo
De sentir
Recatada, sem enlaçar as mãos à beira do rio
Que eras tu
E que eu me recusei a ver

Mas tudo isso, já são verdes de outrora
Que agora amarelecem no Outono
Do que quase consegui ter
E deixam-me na nostalgia dos caminhos
Que poderia ter percorrido
Se não fora
A imensidão ferida das asas sacrificadas
Na senda de um amor absoluto e natural

Ana Wiesenberger (in Nós Poetas Editamos IV)

Imagem de Ricardo Fernández Ortega

Príncipe Encantado

Príncipe Encantado

Sempre soube de cor
Como ele seria

Não viria até mim
Montado num alazão digno de alta caudelaria,
Mas podia surgir
Numa moto de alta cilindrada,
Ao volante de um jipe verde sem capota,
Daqueles, que já fizeram muitas milhas e quilómetros

Seria alto e bem constituído,
De ombros largos e expressivo
A convidar-me a mergulhar
Na profundidade verde ou azul do seu olhar

Saberia muito de moléculas e células,
De animais, de plantas e de doenças
E gostaria de dormir ao ar livre, em tendas,
Em qualquer latitude


Saberia contar-me histórias e estórias
E eu nunca me cansaria de o escutar

Faríamos muitas viagens,
Mas, também, teríamos um lar, algures
Com baloiço no alpendre e serenidade
Ao tombar do dia

Talvez, também, tocasse piano ou violino
Para nos encher a casa de beleza,
Mas nunca perderia um minuto
A ver jogos de futebol, em frente à televisão
Teríamos filhos ou não,
Bichinhos, esses, sim, com certeza
E nunca teríamos medo de esbanjar tempo
Para nos encontrarmos
Numa tela de principiante,
Num bordado simples,
Numa melodia
Ou num poema

Ana Wiesenberger (in IDADES)
 Imagem de Marc Chagall

Tenho Sede de Fantasia

Lauri BlankTenho sede de fantasia
E do seu esplendor
De Midsummer’ Night Dream,
Alice In The Wonderland
E Alice Beyond The Looking-Glass

De encontros no bosque
E estrelas cintilantes
A brilhar no meu vestido da Noite

De pedras onde o musgo lavra a memória
De duendes e gnomos
De gigantes e dragões
A tecerem muros de verde
Para barrar o teu caminho

Do piar das aves nocturnas
A adivinharem destinos escarlate
No beijo sôfrego dos amantes

Da luz da aurora a desnudar
A fealdade do teu semblante
Coberto pelo encantamento de Orfeu
A acordar em mim as asas céleres de Pégaso
Para regressar ao meu leito

Ana Wiesenberger (in Poiesis XX)

Imagem - Lauri Blank

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