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querotrazerapoesiaparaarua

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Há Alturas Em Que Temos de Parar de Ser

Joseph-Désiré Court
Há alturas em que temos de parar de ser
Para sentir
Arrumar o corpo num sítio, aquietá-lo
Imobilizá-lo e permitir que o olfacto
E a visão suturem o vazio instalado

Suspender a inquietude da afirmação do ego
Atar a leveza da borboleta a uma pedra
E esperar pela profundidade do musgo
Dos nossos pensamentos mais íntimos
Sempre ocultos nos passos desaustinados
De um quotidiano febril em que se faz
O que tem de ser feito
Em que se olvida o querer
A voz subterrânea cada dia mais amordaçada
Sufocada pela realidade invasiva
A anular o que há de singular em nós

De tantas pontes construirmos
Para chegarmos aos outros
Esquecemo-nos da necessidade de olharmos
Para dentro e lermos a nossa verdade
Que pode não ser admirável, qual obra de arte
Mas é a nossa raiz, a nossa marca
Que nos distingue dos outros
A nossa respiração

Ana Wiesenberger
27-08-2014

Imagem - Joseph-Désiré Court

Setembro

Gustav Klimt
Setembro dos ocres misteriosos
A surpreenderem-nos pelos caminhos
Por entre o calor do sol
E o sal do mar que apetece
Agora mais do que nunca
Porque sentimos a ânsia de prender o Verão
Não permitir que ele parta
E leve consigo as horas despreocupadas
Que vivemos
Os risos das crianças, os olhares cúmplices
Dos apaixonados libertos do jugo do trabalho
Para amar

Setembro das minhas memórias doces
De juventude
Mãos enlaçadas em passeios inocentes ao pôr-do-sol
A desenovelar sonhos por cumprir
Destinos difusos ainda
A ganhar contornos nas nossas vozes de esperança
Nas nossas expectativas articuladas
Na promessa que os adultos diziam ver em nós
Ou não

Setembro do amor, da paixão natural
Que tivemos de encerrar numa caixa de areia
Por sermos néscios e acreditarmos
Que os outros tinham razão
Não era para cumprir
E afinal, a vida reencontrou-nos em amizade
De cicatrizes guardadas e esquecidas
E eu penso nas horas pardas da minha meia-idade
Que até estive com o Príncipe Encantado
Mas não fui capaz de vestir a minha rebeldia de egoísmo
E fiz-lhe ver, que eu não era a sua destinada Princesa

Na despedida trocámos prendas
Tirei o meu colar de contas violeta do pescoço
Ele despiu a camisola verde como a copa das árvores
Que ambos sabíamos respirar
Abraçámo-nos com olhos vítreos de dor
E voz quebrada
Em mim sempre o imperativo do verbo a ceifar o meu querer
O meu desejo
É melhor assim!

Ana Wiesenberger (02-09-2014)
Imagem - Gustav Klimt

O Vazio Prolonga As Horas

Arthur Rackham
O vazio prolonga as horas
Estica os minutos em não-ser
Não-estar, não-ver, não-sentir

Se ao menos, ao acender uma vela
Comunicasse a vontade de luz
Orientação numa escuridão medonha
Que me atormenta
Incompreensível para um ser da noite

O que paira sobre mim é a dor
Os dentes aguçados do que não quero
Assumir ou compreender

Sempre quis inventar caminhos
Sempre fiz trilhos, vias abertas
E agora pareço um morcego embriagado
De estranheza
A embater nas esquinas dos muros
Esquecido de um radar ancestral
Que lhe daria a paz dos percursos
Conhecidos, apetecidos

Amanhã permanecerá ainda
O grito contido, estrangulado
Desabituado de habitar a garganta

Ana Wiesenberger
19-08-2014

Imagem - Arthur Rackham

Ela Disse, Que Ele Disse

Magritte
Ela disse, que ele disse
Que a amava
Que dela cuidava
Carinho, flores
Olhos nos olhos
Braços noutros braços
Entrelaçados
Nós de emoção
Ou apenas paixão

Ele disse, que ela disse
Que nele não confiava
Que ele lhe mentia
Que era o que não era
E também o que parecia
Querer ser

Ela exigiu palavras, desculpas
Verdades absolutas
De que aparentemente carecia
Pontas soltas dos laços do absurdo
Que ao longo do dia se desenrolavam
Por entre os demais

Ele disse, que ela perdera o fio débil
Da racionalidade ainda sustentada
Por dentro da unidade psiquiátrica
Que ambos cingia

Ela disse, que ele alucinava e vacilava
Entre esgares de desprezo
E SMS com promessas de amor íntegro

E os outros passaram a segui-los com o olhar
Num entusiasmo de quem finalmente
É parte de um elenco
Num enredo propício a muitos episódios
Com a satisfação de quem descobre
Uma série de sucesso
Um carrossel interminável de altos e baixos
Como as vidas cheias do ecrã
Capazes de os fazer olvidar
O cinzento pardacento dos próprios dias

Ana Wiesenberger

O Pássaro

Jacek Yerka
O pássaro
A quem se jura amar
Por lhe proporcionar uma gaiola imensa
Também testa com a dor das suas asas cortadas
Os limites da sua pretensa liberdade

Canta. Não canta
Come. Não come
Inquieta-se como se o gato
Que não vê, já o tivesse devorado
Como se habitasse o interior desse gato medonho
Que o engoliu inteiro
E não lhe deu o tempo necessário
Para perceber que estava morto

O pássaro
Muda de poleiro
Para cima, para baixo
Pára. Escuta o silêncio
Será silêncio ou um rumorejar de algo
Que não conhece
Talvez as batidas apressadas do seu coração
Que afinal não morreu
Que afinal ainda amanhece transparências húmidas
Nas árvores que nunca viu
Nem sentiu
Ou serão remoinhos de sonhos emprestados
Que alguém depositou na sua gaiola amortalhada
E esquecida
Como uma folha de Outono
Abandonada num trilho distante
Do parque ameno
Onde as famílias fazem que conversam
E julgam que são felizes

Ana Wiesenberger
26-05-2014

Imagem - Jacek Yerka

Intimidades

Marc Chagall

Intimidades

 

Eu quero que tu queiras

O que eu quero

Tu queres que eu saiba

O que tu queres

E aborrece-te que eu te queira levar

Onde eu quero sem tu quereres

 

Eu sei que tu não sabes, não conheces

Tudo o que podes querer

Por isso, agarro na tua mão

E levo-te para diante do que tu queres

Onde eu sei, que tu também podes querer ir

Sem saberes, que queres ir

 

Mas por vezes, inquietas-te e sacodes a minha mão

Porque não queres sair do dentro de ti que conheces

Para ir à procura do que ainda não sabes

Que também queres, ou podes vir a querer

Se te atreveres a ir mais além

 

E eu fico triste e contrariada, quando tu não queres

Por não ter companhia na caminhada

E por saber de cor o fio dos dias

E o da minha vontade férrea

Que voltará a puxar-te, a empurrar-te para te levar

A muitos outros quereres

Numa encarnação singular e absurda de Sísifo

 

Ana Wiesenberger

08-05-2014

 

Imagem- Marc Chagall

Foi à Cozinha

Pedro César Teles

Foi à cozinha
Abriu a gaveta dos talheres
E colheu a sua faca preferida

Ligou a música na sala
Sentou-se e aproximou o gume perfeito
Da epiderme suave do seu pulso
Fê-lo deslizar por um instante
E viu o fiozinho de vermelho vivo
Assomar-se tímido
Uma janela ínfima no moreno da carne

Depois ergueu-se, já na convicção firme
Da descoberta dos seus desejos íntimos
Há muito baralhados
Dirigiu-se ao escritório dele
Deparou-se com a ordem das estantes;
Décadas e décadas de música catalogada
Um rigor de cientista coleccionador de órgãos
Amostragens de patologias organizadas
Ao longo de uma vida de dedicação e esmero

Respirou fundo e lançou-se ao trabalho
Passou a noite a abrir as caixas dos CDS
E a desenhar com a faca metódica
Um Z que lhe apareceu natural e espontaneamente
Como se bramisse a espada de Don Diego de La Vega
Numa promessa de justiça cumprida

Antes de fechar a porta, pousou os olhos no jornal dobrado
E achou por bem, deixar-lhe um sinal
Um prenúncio de inquietação - um aceno breve
E enterrou nele a faca copiosamente
Até o transformar numa saia de tirinhas de letras
Que uma criança poderia querer usar
Para se divertir com os amigos
Num dia de Carnaval

Ana Wiesenberger
20-05-2014

Imagem - Pedro César Teles

Ao Deambular Por Sesimbra

Lauro Corado

 

Ao deambular por Sesimbra invade-me
A estranheza de ter entrado numa casa de espelhos
Esforço-me por não olhar em redor
Concentrar-me no momento presente
Todavia, é quase impossível ignorar
A unidade fragmentada

Oiço-me adolescente por entre a família
A atrasar o pedido do almoço no restaurante
Por não gostar de comer isto ou aquilo
Ou a perguntar detalhes quase absurdos
Sobre o modo de confecção dos pratos

Vejo-me a respirar uma juventude
Conscientemente rebelde e sedutora
Entregue à dança sob os reflexos cromados
Do tecto da discoteca

E depois, ainda a outra, já mulher
Ao jugo da carreira e da maternidade submetida
A tentar conciliar a obediência à responsabilidade
E a liberdade interior
A sentir o sonho afastar-se devagarinho

E por isso, quando aqui estou
Passo por mim em cada canto
Suporto paciente o peso da dor
Vivo o crime e a automutilação da alma, do ser
Já sem revolta, só tristeza feita de xaile à beira-mar
Num cais que outrora devia ter abandonado

Ana Wiesenberger
04-04-2014

Imagem - Lauro Corado

Janelas de sol descobrem no casamento cinzento

Pedro César Teles

 

Janelas de sol descobrem no casamento cinzento
Do céu e do mar
Rasgos de luz e beleza a quem o rugir das ondas
Empresta interstícios indecifráveis de raiva e dor
Num concerto monumental acontecido
E sempre novo sob a ogiva da terra mãe
Doce alento que me dobras na desesperança
Na fealdade fútil dos dias
O encanto da maresia ancestral que sou eu
E me deslumbra numa promessa de unidade perdida
Num regresso sempre temido
Sempre desejado

Ana Wiesenberger
01-04-2014

Imagem - Pedro César Teles

Estou Cansada de Memórias

Arthur Hughes

 

Estou cansada de memórias
De salas de espera arrumadas em cubos
Como aquários de grilos sibilantes

Já mandei calar o Watson e o Sherlock Holmes
Disse ao Eça que fosse govarinhar para longe
E ao Brecht que fizesse uma revolução

Eu estou fatigada de ecos dentro e em redor de mim
Já não encontro chaves à espera que eu lhes pegue
Já não distingo a Fada Boa da Má
E desisti de ir até Oz

Vou desintegrar-me em palavras vãs e audiências
A condizer
E fingir-me leda, completa, toda adaptada ao vazio
Das vozes que me estreitam pretensamente perto
E cada vez mais longe de mim

Vou exilar-me nas montanhas do sono e do sonho
Onde a beleza ainda acontece e eu não tenho frio
Nem fome de ser e estar
Onde os seres pequeninos são mestres e sábios
E sabem ouvir e ensinar
Onde não há espaço para mentiras ou inverdades
Onde a transparência das almas se entrelaça
Numa harmonia expansiva de um arco-íris sem par
E ninguém precisa de se justificar
Para existir

Ana Wiesenberger
03-04-2014

Imagem - Arthur Hughes

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