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querotrazerapoesiaparaarua

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O Passado É Um Lastro Incómodo

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O passado é um lastro incómodo

Que atormenta o presente

Em solavancos emocionais

Que nos fazem tragar o cálice da dor

Uma e outra vez

Como ratos de labirinto massacrados

Com choques eléctricos

Nos percursos erróneos que escolhemos

Ou aceitámos vergados pela embriaguez

Do cansaço contínuo

Tantos becos sem saída

Tantas portas fechadas

 

Ana Wiesenberger

25-09-2017

 

Imagem – Jorge Pé-Curto

O Dia Começa Em Bruma

Edmund Dulac - The buried Moon

O dia começa em bruma
Resquícios de uma Alcácer-Quibir
Sempre presentes
Sempre por resolver
A cortar, dilacerantes
A pretensa paz por edificar em mim
Horas possíveis de construção de sentido

 

As vozes do passado são muitas
E os seus gritos sobrepõem-se ao presente
Tornam-me impossível conciliar
Os caminhos seguidos, ditados pela razão megera
Que me algemou ao sofrimento constante
Feridas abertas e purulentas dos sonhos sacrificados
Eternamente cativos na cave da minha vida
E só libertados em memória dolorosa
Quando a tempestade me trespassa
E me dá ganas de assassinar o real
Por ser uma mentira torpe

 

O dia começa com um travo estranho, bolorento
Que me causa náusea e me exila da vontade do suster
Substância que o corpo sossegou numa agonia bafienta
A amordaçar o espírito no Não-Ser
E o único rumo, que ainda me resta
É Ser através da tinta no papel amigo
Aranha triste a um canto do tempo incerto
A aguardar a morte na sua teia breve

 

Ana Wiesenberger
14-11-2014

Imagem - Edmund Dulac

 

A Ausência do Mar-pátria

A ausência do mar-pátria
Desata em mim miríades de delírios
Um estar por aqui e já não estar
Um quase querer abandonar a vida
Por não poder respirar

 

A alma confinada nesta saudade imensa
Sarcófago onde adoece a esperança
Corredor lúgubre e infinito
Que me faz acreditar não haver luz
Para banhar os meus sentidos

 

Erro os olhos à volta
E nada vejo que os prenda
Adoeço presa de ecos e visões absurdas
Como se por detrás das minhas pupilas
Vivessem postais ilustrados de cores berrantes
A imporem etiquetas a eito em paisagens
Como se uma cidade, um rio, um país
Fosse aquilo
E a minha capacidade de sonhar
Estivesse amortalhada pela lente do medo
De saber-se prisioneira de um tempo mudo
Sem contornos, sem prenúncio de beleza
Um arco-íris a acontecer numa gravura
De uma infância há muito vivida
Talvez, lamentavelmente nunca esquecida
Um desejo de retocar molduras do passado
Com o sangue do sacrifício de um presente
Sempre adiado, cada vez mais irreal
Como uma vida passada
Que se pensa ter vivido
Dimensão suspensa de uma Atlântida renovada
Em anéis enfeitiçados por um Deus louco
Por lágrimas humanas

 

Ana Wiesenberger (in Corredores)
29-08-2014

Imagem - Max klinger

 

 

Ao Deambular Por Sesimbra

Lauro Corado

 

Ao deambular por Sesimbra invade-me
A estranheza de ter entrado numa casa de espelhos
Esforço-me por não olhar em redor
Concentrar-me no momento presente
Todavia, é quase impossível ignorar
A unidade fragmentada

Oiço-me adolescente por entre a família
A atrasar o pedido do almoço no restaurante
Por não gostar de comer isto ou aquilo
Ou a perguntar detalhes quase absurdos
Sobre o modo de confecção dos pratos

Vejo-me a respirar uma juventude
Conscientemente rebelde e sedutora
Entregue à dança sob os reflexos cromados
Do tecto da discoteca

E depois, ainda a outra, já mulher
Ao jugo da carreira e da maternidade submetida
A tentar conciliar a obediência à responsabilidade
E a liberdade interior
A sentir o sonho afastar-se devagarinho

E por isso, quando aqui estou
Passo por mim em cada canto
Suporto paciente o peso da dor
Vivo o crime e a automutilação da alma, do ser
Já sem revolta, só tristeza feita de xaile à beira-mar
Num cais que outrora devia ter abandonado

Ana Wiesenberger
04-04-2014

Imagem - Lauro Corado

Infância III

Imagem - Edward Lamson Henry

 

Infância III

 

A escola

Era aquela sala de aula sóbria

Com as carteiras de madeira

Onde nos sentávamos

Com as nossas batinhas brancas

Bem engomadas

 

A professora

Era aquela senhora lá bem à frente

A falar do estrado,

De ponteiro espetado no quadro

Ou de régua na mão

 

Até o recreio, era regrado

Não podíamos bater nas outras,

Nem dizer asneiras;

Havia sempre alguém

Que nos denunciava os ímpetos

 

Hino Nacional ao sábado

Terço às quatro da tarde, diariamente

Lavores, depois do almoço

E leite em pó ao lanche

Com o pão barrado de manteiga Primor

Ou marmelada caseira

 

Não sabíamos, o que era pizza ou hambúrguers;

Tínhamos de engolir a sopinha até ao fim

E pôr os cotovelos na mesa

Ou deixar comida no prato,

Era punido, como se tivéssemos assaltado o banco


Ana Wiesenberger ( in IDADES)

Imagem - Edward Lamson Henry

 

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