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querotrazerapoesiaparaarua

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O Dia Começa Em Bruma

Edmund Dulac - The buried Moon

O dia começa em bruma
Resquícios de uma Alcácer-Quibir
Sempre presentes
Sempre por resolver
A cortar, dilacerantes
A pretensa paz por edificar em mim
Horas possíveis de construção de sentido

 

As vozes do passado são muitas
E os seus gritos sobrepõem-se ao presente
Tornam-me impossível conciliar
Os caminhos seguidos, ditados pela razão megera
Que me algemou ao sofrimento constante
Feridas abertas e purulentas dos sonhos sacrificados
Eternamente cativos na cave da minha vida
E só libertados em memória dolorosa
Quando a tempestade me trespassa
E me dá ganas de assassinar o real
Por ser uma mentira torpe

 

O dia começa com um travo estranho, bolorento
Que me causa náusea e me exila da vontade do suster
Substância que o corpo sossegou numa agonia bafienta
A amordaçar o espírito no Não-Ser
E o único rumo, que ainda me resta
É Ser através da tinta no papel amigo
Aranha triste a um canto do tempo incerto
A aguardar a morte na sua teia breve

 

Ana Wiesenberger
14-11-2014

Imagem - Edmund Dulac

 

ÀS VEZES O DIA É GRITO

Imagem de Christian Schloe

 

Imagem - Christian Schloe

 

Às vezes o dia é grito
Outras é silêncio
Às vezes é berço
E outras é túmulo
Das emoções que escorrem
Nas asas furtivas das horas
Que nos cingem
Mas não agarramos

Às vezes o dia é sangue
Mordaça de sentimentos
Medos que nos fazem abrigar
Aos cantos de nós
Num desespero de fera ferida
A estremecer numa teia
Que tecemos sem dar por isso
Enquanto procurávamos a luz

Às vezes o dia é fel
É desilusão de um nunca acabar
Que exila da nossa vontade
A crença pagã nos ciclos ancestrais
Que deixámos pelos caminhos

Às vezes é-se areia
Quando se quer ser rocha
Lágrima
Quando se quer ser sorriso

Ana Wiesenberger
20-06-2013

 

 

Está a Nevar

Está a nevar
Apetecia-me depositar o meu corpo nu
Na relva do jardim
E confiar à frescura dos flocos melancólicos
O apaziguamento dos meus nervos em chamas

Na casa, aqui e ali
Os sinais evidentes das fúrias que me dominam
Numa exaltação de dor prisioneira
A jorrar de um vulcão incalculável

É triste, este viver aos solavancos dentro de mim
E só chegar aos outros
Em pantominas de excesso
Escuridão rasgada em raios assustadores
Feridas regadas com a gasolina
Que o tempo entendeu espalhar
Numa composição de loucura

A aranha que me tece
Não desiste
Franqueia todas as portas
E os muros que ergo
Nos soluços dos dias

De tanto, querer o sal nas minhas jornadas
Escavo mais e mais na minha permanência
Grutas e túneis sem sentido
Labirintos de caminhos que já esqueci
Territórios bastardos das crenças
Que já me abandonaram
Relógios parados de ponteiros quebrados
Em esgares de morte

Se ao menos, houvesse uma frecha de luz
Na minha penumbra
Se o sol viesse encantar a minha tarde
Em melodias douradas
Se o mar me abraçasse numa libertação
De redes torpes
Talvez eu pudesse ser uma concha de paz
E eternidade

Ana Wiesenberger
07-02-2013

Imagem - Odilon Redon


Imagem - Odilon Redon

Tempestade Tropical

Tempestade Tropical

Ontem tive frio dentro de mim
E quis afastar-me do ermo cinzento musgoso
Que me apertava na garganta
Uma urgência de correr

Ainda olhei em redor
A sondar na postura das minhas sentinelas
Uma brecha de liberdade
Em Vão

Por isso, deixei-me estar atrás do vidro
Das muralhas do meu palácio
Tão diligentemente construído
E fixei no céu aberto
Um pedido veemente
De uma tempestade tropical

E logo ribombaram luzes magníficas
A sacudirem a minha solidão
Em abanões de lágrimas
E queixumes ancestrais
Do meu pacto

Depois, voltei ao meu silêncio
Tranquila na responsabilidade do meu caminho
Apaziguada e rendida
À consciencialização de um dever
Que é desejo
Que tudo transcende
E a tudo obriga
E é voz, corpo e carne
Em mim

Ana Wiesenberger
10-01-2013


Woman Sleeping - Rembrandt

O Retrato De Dorian Gray Na Minha Alma

O Retrato de Dorian Gray na minha alma
Estilhaça-se em fagulhas cruéis
Saem de mim, braços violentos
Capazes de dobrar os silêncios antigos
Em teias assassinas
Para amordaçar os dias
Num estrangulamento de raiva

Não vivo. Abocanho tudo em redor de mim
Numa fúria de vulcão ressuscitado
Numa loucura de quotidiano em Apocalipse
Numa transcendência de sangue roubado
Ossos moídos, triturados
Ao longo das eras

De dia, mastigo envergonhada os gemidos
Do cansaço
De noite, os uivos dominam o espaço
Num rigor de destruição abominável

Deixei de cingir em mim o tempo
É ele que me torce e arranca
Numa brutalidade de fera ferida
Numa vingança lenta e talvez premeditada
Pelo garrote velho da racionalidade esventrada

O Retrato de Dorian Gray na minha alma
Abre-se em gritos e punhais
Para assassinar no presente
O passado que vivi

Ana Wiesenberger

Imagem - David Walker
23-11-2012David Walker

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