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querotrazerapoesiaparaarua

querotrazerapoesiaparaarua

Começo O Dia A Espiar As horas No Relógio de Pulso

 

pablo Picasso - Face

Começo o dia a espiar as horas no relógio de pulso
E a afastar a noite de dentro de mim
Salpicos de vazio do ontem, ainda a estorvarem-me
Na mira da Casa de Partida

 

A perna esquerda, pelo menos está viva
Tenho a certeza porque me dói
E desato a rir do absurdo de me lembrar
Que o povo assume os ossos
Como cérebros da meteorologia

 

Engulo o café, entranho o fumo do cigarro
Mais um e juro, que me vou erguer da cama
É domingo, aquele dia meio estúpido
Que nem é início nem fim de semana
É só uma voz inquietante a censurar-nos
Por não termos aproveitado as horas livres
Como devíamos
E a acenar-nos com a segunda-feira dura de roer

 

É desta! Espreguiço-me
O hálito esquisito ainda não convida a pequeno-almoço
Mais tarde, daqui a pouco já como
E vem-me à memória súbita, o tempo em que conseguia
Deglutir uma tigela de cereais, logo ao despertar

 

O tempo é um escultor ou uma bomba química, hostil
Que destrói as nossas capacidades?
Olhamo-nos ao espelho e temos de lavar a cara
Aquele estranho(a) diante de nós
Para onde terá ido o meu rosto, o meu sorriso?
Para onde terá ido a fome do meu olhar?

 

Ana Wiesenberger
19-04-2015

Imagem – Pablo Picasso

 

Electrão

Jeremy Malvey

Electrão
Protão
Neutrão
Campos magnéticos perdidos na memória
Guardados no tempo das batas brancas
E do cheiro químico do laboratório
Que nos transmudava os ânimos em festa

 

Os convívios de sábado à tarde na cantina do liceu
E as primeiras meias de senhora; nylon, cor de pérola
A arranharem-me as pernas desajeitadas
Sob a saia de xadrez que me roubava o à vontade

 

Esse foi o tempo maracujá do exótico da descoberta
De que os opostos se atraem e os iguais se repelem
Embora isso só nos transtorne a vida e o estar

 

Mais tarde, a época dos espelhos, das luzes
E dos cromados das viaturas de duas e quatro rodas
Em que partíamos numa realização de som e de fúria
Que para tantos terminou em cinza

 

E agora, no tempo ameno dos lilases
Balança-se tudo na arca das recordações
E o início da jornada, o cheiro de baunilha do jardim-escola
Entranhado nas minhas narinas de menina
Já não me parece tão inócuo
Porque, afinal, delineou o meu caminho até ti
Talvez porque o cansaço de ser vermelho e preto
Me levasse a procurar o rosa que abarcava todos os nossos caprichos
E birras
Sem nunca deixar de ser um regaço de ternura, um reduto de apaziguamento
A caverna apetecida onde os nossos olhos viviam as aventuras coloridas
Que passavam no ecrã gigante da alvura da parede na nossa sala de cinema

 

Ana Wiesenberger
11-02-2015

Imagem - Jeremy Malvey

A Harmonia, O Bem-estar Residem Nestes Momentos

Diana Grigore

A harmonia, o bem-estar residem nestes momentos
Em que juntas partilhamos o calor da cama
E a certeza de estarmos onde queríamos estar
Sem mais nada desejar

 

O inverno não entra nos nossos corações
Quando nos aninhamos por entre os cobertores
E só o ar que entra pela janela entreaberta
Perturba o nosso recolhimento com o ruído alheio

 

Elas dormitam, olham-me, recebem festas minhas
Eu bebo café, fumo e preparo mentalmente o dia
Antes de o agarrar com a determinação de quem sabe
Que o tempo é uma dádiva esquiva

 

Mas enquanto me sentir una e acompanhada
Pela ternura dos meus filhos de duas e quatro patas
Pela amizade dos meus amigos reais e virtuais
Cada jornada é uma promessa de fé
Que vou conseguir realizar

 

E quando já não o puder fazer
E as horas passarem por mim
Baças, sem sentido e sem rumo
Viajarei através da memória
A este e outros redutos
Da felicidade que vivi

 

Ana Wiesenberger
23-10-2014

Imagem - Diana Grigore

 

 

Feliz Ano Novo! - Diz-se

Pedro César Teles

 

Feliz Ano Novo! - Diz-se

E é imperativo acreditar

Na fronteira entre o que era

E o que vai ser

Na mornidão amarga das jornadas

 

São foguetes e arraiais no céu

São gritos de júbilo

E euforia nas praças

São restos de espumante e melodias

Que as gentes adormecem na madrugada

 

E se no dia primeiro, do ano que há-de ser

O sol vier inundar o ar de alegria

Parece que tudo nos faz crer

Na promessa da mudança

Na desejada Bem-Aventurança

Por que rezámos ou não

Ao jeito das nossas múltiplas confissões

 

Mas, se não vestirmos os nossos gestos

De outros modos

Se não vivermos as horas

Com um brilho de força renovada

Permaneceremos presas assustadas

Na teia cinzenta dos nossos dias

 

Ana Wiesenberger

01-01-2013

 

Imagem – Pedro César Teles

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