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querotrazerapoesiaparaarua

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Vivo por correspondência

the-false-mirror-1928 - René Magritte

 

Vivo por correspondência

Numa época epistolar

Que, pelo menos, preza

Pela celeridade

 

As mensagens ora breves, ora longas

Sustentam a minha necessidade

De não me sentir ausente deste mundo

De poder acreditar

Que alguém lá longe pensa em mim

Mesmo que, ao de leve

 

E o dia desliza em frente ao ecrã

As horas, os meses passam

E a existência assim vivida

Sabe a papel pardo de embrulhos

Que há muito recebemos com amor

 

Não sei, se a escrita é fuga

Exílio, ou apenas a vontade

De ser muitos rostos, muitos destinos

Que poderiam ter sido reais

Se tivéssemos voltado à esquerda

Ou à direita

Nas encruzilhadas do destino

 

Ana Wiesenberger

22-12-2016

 

Imagem - René Magritte

 

 

Hoje é Halloween!

006

Hoje é Halloween!
Exorcizemos os nossos medos
Sob o negro das máscaras
Cortejo de bruxas e morcegos
Gadanhas, garras e dentes exorbitantes
De vampiro

 

Hoje é Halloween!
No calendário Celta, fim do ano
Pesemos as nossas dúvidas
Encaremos as nossas dívidas
Perante a condição humana
Que vestimos
A grandiosidade de Deuses
Que almejamos

Hoje é Halloween!
Façamos a paz com os nossos mortos
Anulemos os rancores e os remorsos
Permitamos, nesta noite, a proximidade indefinida
Da Morte e da Vida

 

Hoje é Halloween!
Tomemos parte na festa das crianças
Que elas possam colher na hora aberta
A dádiva da escolha do caminho
Do doce e do amargo, do susto ou da harmonia
Na convivência com os demais

 

Hoje é Halloween!
As árvores despidas de folhas
Que amolecem os nossos passos
Anunciam com fervor ancestral
A Morte e a Ressurreição da Vida

 

Ana Wiesenberger
31-10-2014

Imagem - foto tirada na biblioteca da minha escola há uns anos

Não Consigo Entrever A Minha Vida

Pedro César Teles

Não consigo entrever a minha vida

Por entre os cortinados das horas

Quanto mais os abro, mais se cerram

Diante dos meus olhos incrédulos

Traição massiva do que sempre fui

Do que sempre quis

 

A penumbra instala-se intrusiva

Como se já não houvesse sol

Ou as nuvens vingadoras

O tivessem aprisionado

 

Das portas, nem sombras

Uma ilusão de chaves por alcançar

Num deserto de exaustão e desesperança

 

Todavia, permanece em mim a convicção

De que o gelo não mata

Apenas adormece a paisagem

Para lhe conter a beleza

Para fundir em si a ponte

Aparentemente intransponível

Entre o princípio e o fim

 

Ana Wiesenberger (in Corredores)

30-09-2014

Imagem - Pedro César Teles

Fazem-me Falta As Vossas Vozes Poéticas

Victor Nizovtsev
Fazem-me falta as vossas vozes poéticas
O Eco das palavras debitadas
A formar círculos dentro de nós
Como se fôssemos lago e os poemas
Pedrinhas traquinas lançadas
Pela inocência em busca de sentido

Fazem-me falta os momentos de inquietude
Os nossos nomes que alguém diz ao microfone
Para nos chamar a uma ribalta
Só concebida nos nossos sonhos-águia
Porque na realidade é só um cantinho do bar
Onde a esperança de sermos ouvidos e compreendidos
Nos dá força para elevarmos os nossos registos
Numa oração partilhada

Fazem-me falta os minutos ansiosos
Antes da chegada aos locais
Os do regresso, também, em que satisfeitos
A alma respira uma harmonia benfazeja
Por entre o cansaço dos músculos
Que os nervos vergaram para dar corpo
À mensagem, ao mistério do verbo sempre renovado
Sempre reconstruído e singular
Para servir a convulsão dos sentimentos
A balbúrdia dos caminhos
A bússola das horas vividas intercaladas
Com o fio onírico do tempo subjectivo
Que nos sustém

Ana Wiesenberger
20-08-2014

Imagem - Victor Nizovtsev

As Pessoas Sós Passam O Tempo

Henri Toulouse Latrec
As pessoas sós passam o tempo
A deslizarem interminavelmente
Pelos corredores dos seus pensamentos
Construídos na ausência, na exclusão
Dos ecos das outras vozes
Que talvez desejassem perto, às vezes

Arrastam cada detalhe com cuidado
Como se pisassem vidros finos
E cada novo trilho é sempre a procura
Do indefinível na trivialidade da aparência
Dos factos quotidianos

Erram os olhos numa distância íntima
Entre sombras e prenúncios de formas
Que deslindam com vagar
Como se caminhassem à beira-mar
Numa demanda de conchas pequeninas
Suspensas numa filigrana de espuma breve

E quando lhes acontece estar entre os outros
Desatam esgares em vez de sorrisos
Desajeitadas, distraídas dos gestos convencionais
Mal articuladas em frases soltas
Num trapézio de expectativas vãs
De se verem compreendidas

E depois regressam ao seu espaço
Calçam os seus passos inseguros de exterior
Com as pantufas de feltro velho dos seus sonhos
E aninham-se na poltrona puída de uma saudade
Singular a tecer fios novos para a sua teia
Com a consciência triste de ser aranha e mosca
Em simultâneo
Num conluio de estranheza

Ana Wiesenberger
01-06-2014

Imagem - Henri Toulouse Latrec

Estou Cansada de Memórias

Arthur Hughes

 

Estou cansada de memórias
De salas de espera arrumadas em cubos
Como aquários de grilos sibilantes

Já mandei calar o Watson e o Sherlock Holmes
Disse ao Eça que fosse govarinhar para longe
E ao Brecht que fizesse uma revolução

Eu estou fatigada de ecos dentro e em redor de mim
Já não encontro chaves à espera que eu lhes pegue
Já não distingo a Fada Boa da Má
E desisti de ir até Oz

Vou desintegrar-me em palavras vãs e audiências
A condizer
E fingir-me leda, completa, toda adaptada ao vazio
Das vozes que me estreitam pretensamente perto
E cada vez mais longe de mim

Vou exilar-me nas montanhas do sono e do sonho
Onde a beleza ainda acontece e eu não tenho frio
Nem fome de ser e estar
Onde os seres pequeninos são mestres e sábios
E sabem ouvir e ensinar
Onde não há espaço para mentiras ou inverdades
Onde a transparência das almas se entrelaça
Numa harmonia expansiva de um arco-íris sem par
E ninguém precisa de se justificar
Para existir

Ana Wiesenberger
03-04-2014

Imagem - Arthur Hughes

De Costas Voltadas Para A Vida

Jiri Borski

 

De costas voltadas para vida
Passamos os dias entre ninharias prementes
E mal-entendidos que criamos
No nosso afã de fazermos de conta
Que somos importantes

E ignoramos o peso das horas
Que não vivemos
Para ver, compreender, crescer
Até que tudo nos parece sórdido, pardacento
Ignóbil e fútil

Quando nos lembramos de agarrar
O fio dos dias
É em arranques inconsequentes
Numa vontade infelizmente intermitente
De sermos singulares e verticais

E o tempo desliza
Os anos passam sem acenarem
E quando damos por nós
Já avistamos o cais derradeiro
E descobrimos que não fomos
Não fizemos
Não deixámos nada a assinalar a nossa presença
Num território que por décadas
Nos foi dado ocupar

É urgente aprendermos a vestir convicções
Nos nossos gestos, nos nossos passos
Não desperdiçar a oportunidade de sermos voz
De sermos balada, sinfonia
Em vez de requiem adiado
Na flor das idades
Que julgámos viver

Ana Wiesenberger
22-03-2014

Imagem - Jiri Borski

Desejo que o Ano Novo

Thomas Moran

 

Desejo que o Ano Novo

Aguce os sentidos do meu povo

Que ele possa estar mais atento à realidade

E não se deixe alienar pelas tabelas futebolísticas

E enredos de pacotilha no ecrã da sala

 

Desejo que o Ano Novo

Rasgue nas mentes a urgência de agir

A vontade de dizer NÃO

A capacidade de investir contra o logro

A coragem de saber ver, ouvir, ler

E desmantelar as tramas a que nos sujeitam

 

Desejo que o Ano Novo

Alumie nos nossos semblantes

A fome da verdade

A necessidade de condenar a mentira

A força de lutar pela afirmação do nosso valor

De ser hino e de ser História

 

Desejo que o Ano Novo

Faça crescer em nós a empatia

A consciência de sermos irmãos na fome e na dor

E nos dê a solidariedade veemente

Para sermos nobres nos corações

E coniventes nas acções do quotidiano

 

Desejo que o Ano Novo

Seja água primordial que lave dos nossos olhos

Das nossas mãos, dos nossos corpos

A poeira da covardia, da demissão de ser e fazer

E fortaleça nas nossas almas

A convicção da nossa responsabilidade cívica

Da premência de intervir sem medos

E não pactuar com a injustiça e o esmagamento

Dos mais fracos

 

Desejo que o Ano Novo

Não seja a perpetuação do mal a acontecer

Ao nosso lado indiferente, acomodado ou desatento

Que depois nos surpreende em títulos dolorosos

De pedofilia, violência familiar, maus tratos e abandono;

Seres humanos e animais ultrajados na sua condição

Vergados a pulsões doentias de quem só ama a morte

E a destruição

 

Desejo que o Ano Novo

Signifique nas nossas vidas

Um verdadeiro despertar

Para a dimensão de SER

 

Ana Wiesenberger

31-12-2013

 

Imagem - Thomas Moran

 

Feliz Ano Novo! - Diz-se

Pedro César Teles

 

Feliz Ano Novo! - Diz-se

E é imperativo acreditar

Na fronteira entre o que era

E o que vai ser

Na mornidão amarga das jornadas

 

São foguetes e arraiais no céu

São gritos de júbilo

E euforia nas praças

São restos de espumante e melodias

Que as gentes adormecem na madrugada

 

E se no dia primeiro, do ano que há-de ser

O sol vier inundar o ar de alegria

Parece que tudo nos faz crer

Na promessa da mudança

Na desejada Bem-Aventurança

Por que rezámos ou não

Ao jeito das nossas múltiplas confissões

 

Mas, se não vestirmos os nossos gestos

De outros modos

Se não vivermos as horas

Com um brilho de força renovada

Permaneceremos presas assustadas

Na teia cinzenta dos nossos dias

 

Ana Wiesenberger

01-01-2013

 

Imagem – Pedro César Teles

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